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março 30, 2004

Ao espelho

Há cerca de mês e meio revi-me noutra pessoa... Há cerca de mês e meio revisitei o meu passado...



Há cerca de mês e meio recebi o telefonema de uma amiga com quem não falava desde o Natal. Com a voz trémula perguntou-me se podia encontrar-se comigo ainda na mesma semana, ao que respondi afirmativamente. Embora não me tivesse adiantado o assunto, percebi que estava bastante perturbada e com alguma urgência em ver-me. Combinámos em minha casa dois dias mais tarde e, à despedida, irrompeu num choro convulsivo.

No dia previsto atrasei-me um pouco e liguei-lhe a avisar. Do outro lado respondeu-me estremunhada, arrastando as palavras de maneira que mal se percebiam. Eram 17 horas e estivera a dormir desde as 18 do dia anterior. Disse que tinha a língua presa, que não conseguia aguentar a cabeça e que sentia uma dormência no corpo. Não conseguiria levantar-se para ir ter comigo.
Dez minutos mais tarde ligou-me de volta afirmando sentir-se melhor e pedindo que esperasse por ela.
Fui encontrá-la sentada nas escadas do passeio, curvada sobre si mesma, com as pernas estendidas e os braços molemente caídos. Chamei por ela e levantou-se cambaleante. Tinha o rosto macilento, os olhos baços, pisados, com olheiras profundas e acastanhadas. Era uma vaga imagem de si, como se a sua essência tivesse sido sugada por alguma estranha força e restasse apenas um despojo físico quase residual. Não comentei mas senti. Senti profundamente. Senti aquilo que penso terem sentido os outros quando, há 4 anos atrás, me avistavam, perguntando aos meus pais, em segredo, se eu estava doente por me verem tão esmaecida e esquálida... um farrapo humano... Agora entendia a expressão de repulsa, o sobrolho carregado, o olhar de esguelha, a desconfiança com que me presenteavam naquela época. Contive as lágrimas.
Sorri e abri-lhe os braços. Estreitei-a com força, na esperança de que o ânimo fosse contagioso ou passasse por osmose. Convidei-a a entrar e sentámo-nos. Não aceitou o chá ou as torradas com que costumávamos brindar nos nossos encontros.
Falámos durante longas horas. Sentia-se perdida, sem referências, estranhando-se e desconhecendo-se. Via-se alterada nas emoções e nos afectos, com uma hipersensibilidade que tocava a intolerância, tornando-a reactiva à menor palavra e provocando-lhe agressividade e ataques de choro convulsivo. Dizia-se acometida por uma ansiedade latente com razão indeterminada, prostrada por um cansaço crónico, alternando longos períodos de sono com frequentes insónias. Contou-me do desespero dos pais que não a reconheciam e sentiam a torturante impotência para curar uma doença invisível provocada por vírus indeterminado e com manifestações inesperadas. Confessou a tentação da desistência com a auto-estima degradada.
Pediu-me que lhe explicasse o que se passava, como se passava e como se ultrapassava.
Lamentei não saber fórmulas. Lamentei mesmo que não existissem fórmulas. Pude apenas partilhar as lembranças da fase mais aguda da minha depressão e fazer uma viagem às profundezas de mim. Não terminei naquele dia. Ainda hoje não terminei. Ainda agora desconheço quando irei terminar...

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 1- Razões
Partilhas

Parabéns pela CORAGEM e ALTRUÍSMO demontrados neste pequeno mas elucidativo episódio.
Esta forma de escrever e descrever a Depressão é mais valiosa que o DSM-IV. Vá em frente.
Os doentes e seus familiares agradecem.

Partilhado por: Carlos Palma em março 19, 2005 01:30 PM

Mais um texto magnífico e angustiante.
Beijinhos

Partilhado por: Twilight em outubro 28, 2004 10:08 PM

O teu texto é um espelho... por vezes sentimos esse reflexo quando tentamos ajudar alguem! Acontece-nos.

Partilhado por: Carlos Martins em outubro 15, 2004 06:07 PM

meses mais tarde, já depois de te ter conhecido, e depois de eu própria ter tido uma recaída (da qual ainda não saí), as tuas palavras continuam a tocar-me cá dentro... Acho que devias passar estas crónicas para o papel e depois tentar publicar... Vale bem a pena, nem que tenhas de usar um pseudónimo ou disponibilizar como e-book, online...

Graças a Deus, as manifestações físicas da minha depressão não foram muitas... excepto o cansaço, o imenso sono, a lentidão de raciocínio e a memória mais fraca... felizmente... e espero poder continuar a dizer isto...

Partilhado por: gata em setembro 20, 2004 01:02 PM

Neste caso acho que a tua amiga devia pedir ao médico para reconsiderar as dosagens dos antidepressivos e outros medicamentos que andava a tomar. Quando o meu psiquiatra me diagnosticou uma depressão, dei-me terrivelmente mal com as substâncias da praxe que me foram recomendados. Ficava sem forças, ânimo, muito sonolento, com dores de cabeça, irascibilidade,... e também me acontecia isso da língua presa (mas há umas pastilhinhas milagrosas que resolvem esse problema em 3 tempos). Falei com o médico e este resolveu cortar com os calmantes e soporíferos, deixando ficar apenas os estimulantes. Resultou. 2 semanas depois sentia-me completamente diferente e tenho vindo progredir.

Partilhado por: NeverLess em agosto 6, 2004 06:42 PM

O excessivo envolvimento emocional nos assuntos de amigas/os não será aconselhável se ainda não se está totalmente curado da depressão, sob o risco de se ter uma recaída. Com efeito, esse envolvimento poderá destruír o frágil equilíbrio da voz interior e reflectir-se negativamente nas atitudes.

Partilhado por: Carlos Martins em julho 8, 2004 07:04 PM

Lá está, não há formulas e por isso é que muitas vezes eu me pergunto se estou/estive/tenho propensão a estar deprimida...A minha familia também não ajuda porque ao minimo sinal cai tudo em cima de mim...Entenda-se minimo sinal como ouvir uma musica em que aparece uma vez a palavra 'suicide'...

Partilhado por: Matilde em abril 15, 2004 10:26 PM

Como eu te compreendo, mas vais sair dessa, tal como outros sairam, tal como EU saí. Força!

Partilhado por: Paulo em abril 13, 2004 01:58 PM

Vim aqui parar através do blog da Gata. Olhei, li e fiquei, talvez porque o tema me seja particularmente próximo! Muito mesmo! Talvez por isso me atreva a dizer que vais terminar essa viagem assim que tenhas coragem. ;) E acho que tens! Revelas na escrita essa força. A minha segunda depressão quase levou a familía ao desepero, pouco faltou para uma desgraça. Agora, graças à ajuda preciosa de pais, amigos e mais uns quantos familiares, e também ao profissionalismo do psiquiatra e à escolha de terapias alternativas como o reiki e os florais de bach. ;) Vou voltar, para ver como corre essa tua viagem! Boa-sorte! ;)

Partilhado por: Catarina em abril 10, 2004 12:26 AM

olá!
ainda não tive oportunidade de explorar convenientemente o teu blog, mas a ideia é de louvar!! há demasiada gente com depressão; muitos nem sabem que a têm; outros não sabem lidar com as pressões sociais...
vou pôr um link para o teu blog no meu ninho.
em nome de todos os que já tiveram uma depressão, ou que ainda a têm, um muito obrigada, Cátia...

Partilhado por: gata em abril 3, 2004 08:27 PM

vim cá ontem deixar um comentário como "papôa", e hoje venho dizer que resolvi mudar o nick. e que o meu blog está pronto... =)

Partilhado por: pappoila em abril 3, 2004 07:19 PM

(...)
o teu texto...
julgo que não será apenas um texto... quanto mais não seja, pela espreitadela rápida que deitei à tua barra lateral. eu tive uma depressão há bem pouco tempo. espero já ter saído dela... beijos

Partilhado por: papôa em abril 2, 2004 10:33 PM

Somos um universo com terríveis buracos negros com uma densidade infinita e que sugam tudo o que lhes está próximo. Quando a evolução é essa, o que tem que acontecer é encontrarmos força para dessa massa e densidade enormes, opressivas, se inicie algo de novo, através de uma explosão que provoque uma SUPERNOVA.

Partilhado por: fm em março 31, 2004 03:00 PM

Interessante o 1º comentário ser de um homem.

Se este texto é só isso mesmo, um texto, está muito bem conseguido. Retrata muito bem a depressão. Nem quem a sente nem quem assiste sabe lidar com ela.

A minha experiência (casado com uma depressiva) muita paciência, muito esforço, muita persistência e sobretudo, acreditar que o fim chegará.

Parabéns pelo texto.

Partilhado por: João Norte em março 30, 2004 04:20 PM

Este espaço atingiu o limite de comentários directos aos textos mas pode ler mais no
Livro de Partilhas