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abril 14, 2004

Primeiros sinais

Procurei determinar a razão que me levou ao silêncio e me transformou numa sombra de mim.



Procurei muito. Tanto! Quanto mais recuava no tempo, mais razões possíveis encontrava. Encontrei tantas que perdi a conta… Não sabia quando parar pois parecia que nenhuma delas tinha sido a origem. Afinal, algumas já nem eram razões, mas consequências que se confundiam com razões. A própria necessidade de encontrar uma razão era uma consequência. De quê, afinal? Provavelmente da minha ansiedade constante e crónica. Lembro-me de ser ansiosa desde que me lembro de mim mesma…
Depois de muito procurar, encontrei os primeiros indícios de destabilização concreta aos 21 anos. Até hoje não consigo isolar as causas, mas é um facto que nessa idade mudei em termos emocionais e fisiológicos.
Lembro-me claramente do Verão de 1996. Corria o mês de Junho e estava em casa da minha avó materna. Acordei pelas 4 da madrugada com os cães em alvoroço nos quintais das traseiras. Senti uma forte dor de cabeça, a maior de que tenho memória. Não voltei a adormecer. Assisti ao nascer do sol com o corpo dorido, a latejar e as lágrimas a brotarem dos olhos, tal era a força com que cerrava os dentes para não gritar. A partir desse dia passei a acordar com o menor ruído, a ter pesadelos e dores de cabeça uma vez por semana, pelo menos. Ainda pensei ir a um psiquiatra mas a minha mãe mantinha firme a ideia de que temos de ser nós mesmos a analisar e ultrapassar os maus momentos. Não seria com «açúcar e pedra moída» que, por artes mágicas, da noite se faria dia.

Passaram dois anos.

A minha "jornada depressiva" terá começado aos 23. É difícil precisar pois não existiu um acontecimento por si só responsável pela minha queda no fundo do poço. No entanto, não me restam dúvidas de que o mais significativo marco no percurso da queda foi a morte do meu avô paterno. A morte ou a surpresa da morte… Foi inesperada. Nada a anunciava.
Era sábado. O último dia do primeiro mês do ano. O primeiro do meu percurso de invernia. O dia começou frio, aclarado por um sol anémico. Fui visitar as ruínas romanas de Tróia, em Setúbal. Detive-me nas cetariae transformadas em sepulturas paleocristãs no final do século V d.C. e recordei o sentido das palavras inscritas na lápide de uma menina em Roma: «Tu que vives e passas por mim, continua a tua caminhada. Aproveita o que cedo me foi tirado.»
Quando a visita terminou, o meu pai fez um telefonema. Desligou sem palavras, consternado. Trocou algumas sílabas com a minha mãe. Soltei um grito incrédulo. Apanhámos o barco de volta. Senti o vento cortar-me a cara durante toda a travessia do Tejo. Nunca o rio fora tão largo e as margens tão distantes!

Não esqueço a luz doentia do único candeeiro que iluminava a sala. Também não esqueço o cheiro pesado e bafiento de toda a casa. Nem o murmúrio distante de quem estava tão próximo. Menos ainda a descrição «… morreu de pé… caiu antes de alcançar a cadeira… desamparado… um fio de sangue escorreu pelo lábio depois do embate…»
Fui encontrá-lo já fardado de cerimónia. A última. Branco. A boca aberta. Parecia dormir. E eu cantava para dentro «(…) breathe your life and soul in me (…)»… Repeti durante todo a caminho até ao Alto de São João. Interrompi com um pranto quando o vi devorado pela vulva de chamas. Continuei depois durante toda a longa espera. Parei quando mo apresentaram na forma de cinzas. «Um metro e oitenta dentro de uma caçarola…» - disse a minha avó. Foi lançado num buraco aberto na terra.
Meses depois, passada a vital união, a família foi fraquejando. Um a um. Veio a minha vez…



Cátia Mourão, sem título

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 2- Sintomas
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Acho a tua corragem algo de estraordinário. Também procuro a cura para a minha depressão, só não sei se é mesmo depressão! Sei um pouco o que sentes, também perdi uma pessoa muito importante, o meu namorado, morreu de acidente e desde esse tempo que os meus sentimentos parece que não se definem. Universidade? Não consigo fazer cadeiras nenhumas, acho que a minha inteligência se foi. A minha familia acusa-me da morte dele; dizem que foi por minha causa que ele morreu. Não consigo trabalhar, estudar, nada. Estou perdida. Não sei se procure um psiquiatra, se por outro lado... meu Deus! Alguém me ajude!!!

Partilhado por: Vilma em fevereiro 10, 2005 10:53 PM

Maravilhosamente bem escrito. Admiro a tua coragem de escreveres tão abertamente sobre a tua vida e os teus sentimentos. Gostei mesmo muito. Vou voltar todos os dias para ler mais uma crónica.

Partilhado por: Twilight em outubro 21, 2004 07:56 PM

Para resolver isto é importante que se consiga analisar factos e sentimentos que desencadearam esse mal com a ajuda de um bom profissional de saúde.
A vontade é sempre um ponto fulcral para o tratamento e, se houver colaboração com os especialistas, as melhoras depressa surgem.

Partilhado por: Carlos Martins em julho 9, 2004 07:09 PM

A vida de cada um de nós é feita de circunstâncias, algumas muito desagradáveis, muito traumatizantes. A perda de alguém que se amou é uma dessas. Mas a vida é feita de perdas e ganhos. É a própria lógica do fenómeno vida. É preciso que compreendamos isto para ultrapassarmos as nossas dores. O medo existe enquanto existe a esperança. É na esperanças que devemos fincar os pés.

Partilhado por: João Norte em abril 19, 2004 07:10 PM

Já não me lembrava que tu escreves tão bem e penso que é admirável a tua coragem em partilhar o que sentes e sentiste. Recordo-me perfeitamente desse dia e do passeio a Tróia...Como me poderia esquecer?
Eu também passei por dores semelhantes e, para ultrapassá-las, tento ser optimista e não me deixar afundar no medo e na tristeza. Verdade seja dita que tu, minha amiga, és um bom exemplo de que a vida pode estar cheia de surpresas agradáveis. É certo que elas só se conseguem quando lutamos por elas. E tu lutaste e (acho que) venceste.

Partilhado por: Margarida em abril 16, 2004 04:48 PM

Admiro a maneira como falas deste assunto. A sério. Eu nunca tive nenhuma depressão - acho que isso era chamar um nome demasiado bonito ao meu constante estado inconstante...Fiquei adepta deste blog. Sinceramente, és um exemplo para muitos.

Partilhado por: Matilde em abril 15, 2004 10:21 PM

acabei de escrever um post no meu ninho a divulgar o teu blog. vai lá, por favor, corrigir algo que tenha sido diferente contigo...

Aqui:
«viver uma depressão»

Partilhado por: gata em abril 15, 2004 01:47 PM

escreves muito bem. dolorosamente bem... eu tive uma depressão. gosto de acreditar que já saí dela. mas não tenho a certeza disso. erradamente não fui a nenhum psiquiatra nem psicólogo - só ao médico de família que não me diagnosticou uma depressão. segundo um psicólogo meu amigo com quem depois falei quando já me sentia quase bem, eu terei provavelmente assustado o meu médico... e, por sua vez, ele terá tido receio de assustar-me e agravar a situação.

uma depressão tem sempre milhentas causas, eu acho... mas também tem sempre uma gota de água...
qualquer dia falo da minha experiência depressiva num dos meus blogs...

continua a escrever. é muito importante - pelo menos para mim... obrigada pelo blog e pela coragem de escrevê-lo.

(podia assinar como pappoila - não sei se já me associaste ao "my DreaMaker")

Partilhado por: gata em abril 15, 2004 01:33 PM

Ás vezes, por detrás da nossa aparência segura, firme e inabalável, esconde-se um ser humano com sentimentos e fraquezas, fraquezas essas que, um dia vêm ao de cima.

Partilhado por: Paulo em abril 14, 2004 09:09 AM

Há quem defenda que grande parte das pessoas depressivas, já nascem assim. Não sei se é verdade ou não. Sei que a minha hiperactividade, escondida durante mais de 20 anos, foi uma das razões que desencadearam tudo o resto. Um dia, assim do "nada", caí para o lado. O psiquiatra descobriu que, pura e simplesmente, eu não parava para descançar e tinha acumulado ANOS de trabalho. Ou seja, tirava férias para me dedicar a outro projecto ou iniciativa. Também era muito ansiosa e nervosa, o que agravava a situação. Já nesta segunda grande crise que tive, ela aconteceu devido a uma sequências de tristezas e desilusões. Agora, em plena recuperação, resolvi aprender a canalizar energia, a amar sem dor, a dedicar-me aos outros mas de maneira consciente. ;)

Partilhado por: Catarina em abril 13, 2004 11:16 PM

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