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abril 15, 2004

Outono de mim

Os Cantos da minha boca deixaram de sorrir e transformaram-se em caleiras de lágrimas. Perdi o viço… Caíram-me as folhas…



Escrevi então:

«O parto das manhãs vai-se tornando cada vez mais penoso. Os dias são raquíticos, nebulosos, sem sol. Como é difícil encarar a luz branca, fria, metálica que entra pela janela e me rompe o orvalho dos olhos ao despertar! Corro a persiana e volto o rosto para o outro lado. Abandono-me à preguiça de um fechar de pálpebras e afundo-me na escuridão dos sonhos, perdendo-me no limbo que separa os sons do mundo das imagens que não controlo.
Levantar-me para quê? Fazer o quê? Tudo é cortante! O algodão das telas arranha-me os dedos… o barro devora-me as mãos… o lápis crava-me a pele como uma farpa…»

Mergulhei na melancolia saturnina. Fui lentamente largando interesses, experimentando desistências e escorregando para dentro de mim…

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 2- Sintomas
Partilhas

Para além do desinteresse por tudo, a depressão também provoca uma necessidade de afastamento relativamente aos outros. Sente-se incompreensão, recusa e desvalorização dos sentimentos pela sociedade. Isso pode levar a uma auto-negação e a uma baixa auto-estima.

Partilhado por: Carlos Martins em julho 9, 2004 12:07 PM

Eu tive uma depressão e sei que não é coisa fácil, mas também sei que se a deixamos dentro de nós estamos a dar-lhe força. Eu "dei-lhe força" por anos a fio, até que me perdi de mim.
Ainda hoje recupero aos poucos as minhas forças.
É lenta a recuperação, principalmente se não lidamos directamente com a causa.

Partilhado por: #Anónimo# em abril 20, 2004 12:02 AM

Há quem tenha tido uma depressão e tenha querido esquecer-se de como foi... eu quis durante muito tempo, mas reler este blog despertou em mim as lembranças. Nessa altura também eu dormia muito. Ou quando não dormia deixava-me ficar pela cama ou pelo sofá prostrada. Sem reacção.

Partilhado por: Maria em abril 17, 2004 11:26 AM

Ao contrário do que era normal em mim, também me remeti ao silêncio e ao escuro do meu quarto. Enfiada nos lençóis lá me ía abanando como uma velhinha de 90 anos, a tremer e cada vez mais magra.
A esta distância, é interessante ver como é que uma pessoa tão faladora quanto eu, e que detestava ficar enfiada em casa e no quarto, adoptou precisamente esse "refúgio".

Partilhado por: Catarina em abril 16, 2004 09:34 PM

o médico disse me - e eu já sabia - que, para mim, dormir é um mecanismo biológico de defesa. desde pequenina que sou assim, que durmo e fico cheia de sono quando tenho um problema. na pior fase da minha depressão dormia 13 a 14h por dia e passava o resto do tempo cheia de sono, a bocejar... andava na rua e só me apetecia deitar-me no chão e não me mexer mais...
mesmo no sofá, só queria não mexer um único músculo, não fazer um único movimento, não ter um único pensamento...

Partilhado por: gata em abril 16, 2004 05:20 PM

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