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abril 22, 2004

O vómito

A ansiedade, os reveses, a frustração, revolviam-me as entranhas. Sentia uma imensa bola de fogo devorar-me por dentro.



O estômago parecia estar no centro de mim, no núcleo dos meus nervos. Passou a ser o fiel da minha balança... um fiel desafinado numa balança com medidas oscilantes. Tão depressa ficava cheia como vazia. Ou ingeria desalmadamente, ou jejuava. Deixei de aguentar o menor elemento no estômago, aprendi a seleccionar, a expurgar e a "purgar-me".
Escrevi então, em idos de 1999:

«Pulsa,
fermenta,
febril,
revira-me num enjoo;
Dou-lhe a mão e trepa,
quente,
ácido,
roendo a carne,
saindo em espasmos,
libertando o corpo esquálido,
prostrado.

Os nervos à flor da pele,
o peito ofegante,
a garganta
lateja
dormente.
A espera no vazio imenso
desespera
e mata lentamente,
escorre pelos poros
inundando a angústia ardente,
desistente.»

Encontrei alguma sintonia em líricas de conteúdos perturbantes. Ouvi-as ad nauseam. Cultuei-as, embora na época não tivesse chegado a saber a autoria. A que mais me marcou foi, sem dúvida, Holy, de Nicole Blackman, integrada no álbum «Dead Inside», dos Golden Palominos:*


«I eat only sleep and air
and everyone thinks I'm dumb
but I'm smart because I've figured it out

I am slimmer than you are
and I am burning my skin off little by little
until I reach bone and self
until I get to where I am essential
until I get to where I am

Food doesn't tempt me anymore
because I am so full of energy and sense.
I can even pass by water now
because I am living off the parts of me
that I don't need anymore.

I could feel the slow drips of pain before,
swirling inside where my lungs
should have been.
Now I'm clean inside.

I threw out hundreds of things that
I didn't need anymore.
All my dresses and bras
stupid things like jeans and socks.
Most days I float through the house naked
so I can see myself in the mirrors.
I have hundreds of them everywhere
and they talk back to me all the time.
They keep me true and pure.
they make sure I'm still there.

When I knew what I had to do
I took all my notebooks, all my manuscripts
and ate them page by page
so I could take my words with me.

I can finally control my life and even death
and I will die slowly like steam escaping from a pipe.

This is my greatest performance
and all of the actresses who won my parts will say
how wonderful to let yourself go that mad,
how wonderful to go on this kind of journey
and not care if you come back to tell the story.

I scratch words on the walls now
so people will visit this museum and know
how someone like me ends up like this
(they'll say there is art in here somewhere).

Everything that comes out of me is sacred
every tear, every cough, every piss.
Everything that comes off of me is sacred
every fingernail, every eyelash, every hair.

Starvation is sacred and I
scratch my bones against the windows at night.
I light candles and feel myself evaporate.
This body is a little church, a little temple.
You can't see me now because I've gone inside.

My family doesn't call anymore.
My friends don't call anymore.
They can't hurt me anymore.
You can't hurt me anymore.
Only I can.

And that's okay.
I don't need them anymore.
I can live off of me.
I speak to me.
I dance with me.
I eat me.

When they find me, I'll have a little smile on my face
and they'll wrap me in a white cloth
and lay me in the ground
and say they don't understand.
But I do.
I don't hurt anymore.
I'm not lonely anymore.
I'm not sad, I'm not pretty anymore.
I made it through.

I feel so holy and clean when I stretch
out on the floor and sing.
Sometimes God comes in for a minute
and says I'm doing fine,
I'm almost there.

Every day I get a little closer to vanishing.
Some days I can't stand up because
the room moves under my feet
and I smile because I'm almost there,
I'm almost an angel.

One day when I am thin enough
I'll go outside
fluttering my hands so I can fly
and I will be so slight that I
will pass through all of you
silently like wind»

* [agradeço ao #Anónimo# pela referência]


ortho[rexia]

Cátia Mourão,

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 3- Depressão
Partilhas

Descobri suas crónicas faz pouco tempo e realmente você sabe expressar esses turbulentos sentimentos como poucos o fariam e tem a energia necessária para isso.
Lendo as crónicas, os comentários e ouvindo a música veio-me à mente uma pergunta: "será que não se esconde um prazer mórbido por detrás de tão prostradora depressão?" Não digo que a depressão não seja dolorosa, sim ela é, mas será que muitos não sentem um prazer pela dor que ela causa?
Só foi uma questão que me veio à mente...
Um abraço e ânimo para continuar, voltarei mais vezes.

Partilhado por: Outra em janeiro 12, 2005 09:52 PM

Cada vez mais gosto mais desta musica. É depressiva, sem dúvida, mas é harmoniosa... Desde que não nos arraste acho-a terapêutica - até mais a sonoridade do que a letra.
Mais uma das coisas boas que conhecer-te trouxe á minha vida =)

Partilhado por: gata em setembro 20, 2004 01:18 PM

A depressão é uma resposta ainda saudável do corpo e mente, um sinal de que a vida não está a ir bem e que é necessário tomar medidas. E é aqui que, por norma, o sistema falha, não permitindo, eventualmente, aprender a gerir aquilo que não estava bem.

Partilhado por: Carlos Martins em julho 9, 2004 06:59 PM

Tal como a Gata, nunca consegui escrever nada, enquanto passei pelas minhas duas depressões. Nem escrever, nem ler! ;) Quanto ao peso, ele não oscilava: teimava em manter-se na média dos 38kg/40 kg. Agora sim, estou a recuperar e a ter um peso que nunca tive antes: 53kg.;) bjs

Partilhado por: catarina em abril 30, 2004 12:33 AM

Confuso...mas perceptivel.

Partilhado por: Paulo em abril 27, 2004 01:00 PM

Estava a ler e a reparar o quanto estas experiências nos levam a provar os extremos… o querermo-nos libertar da pele e chegarmos à essência, parte de uma necessidade profunda de significado. Muitas vidas carecem de significado, mas o transtorno emocional que reveste a depressão não permite que a questão seja objectivada e mentalizada de forma sã. Assim, na depressão esse alcançar da libertação do sofrimento é visto de um modo absoluto, quando em saúde seria visto de um modo mais prático, mais “realista”. Isto dito por alguém que acredita na iluminação e na libertação do sofrimento, mas sempre de um modo não auto-destrutivo.

Sobre a menção que fazes ao estômago, posso dizer que pela via esotérica, em significado, o estômago está ligado ao controlo. Ao controlo que temos sobre as coisas, sobre o mundo. Logo a primeira coisa que nos dói quando a realidade nos foge debaixo dos pés é o estômago, perturbando a digestão e provocando algum pavloviano evitar dos alimentos menos leves (embora mentalmente esse evitar seja provavelmente adornado das mais poéticas adequações situacionais).

Espreitei no Google… A música chama-se Holy, é dos The Golden Palominos e está no Álbum Dead Inside.

Também não fazia ideia do que era isto...

Partilhado por: #Anónimo# em abril 27, 2004 11:37 AM

eu emagreci um pouco mas foi porque não tinha a gula que normalmente tenho. julgo que foi também efeito do antidepressivo. o meu problema do estômago era mais o nervoso miudinho que sentia nele...
não tenho praticamente escritos dessa época porque a sonolência era demasiada e o cansaço mental esgotava-me na 2ª frase.

Partilhado por: gata em abril 22, 2004 01:00 PM

Este espaço atingiu o limite de comentários directos aos textos mas pode ler mais no
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