|  Translation  |

abril 23, 2004

Ebriez

Quando se sente tudo, quando a sensibilidade dá lugar à susceptibilidade, quando tudo perturba ao ponto limite da obsessão...



Foi assim que me senti. Foi a esse estado que cheguei. Foi por isso que uma vez me precipitei na primeira substância que me atenuasse as sensações e que estivesse ao meu alcance sem o menor esforço mas que, no entanto, tivesse algo de mágico, poético, quase alquímico.
Pouco tempo antes havia adquirido para a minha colecção de livros ilustrados de poesia, O Vinho e as Rosas, uma antologia de poemas que brindam ao vinho, desde a Antiguidade até aos nossos dias, atravessando civilizações, percorrendo a Terra de Nascente a Poente.
Inspirei-me. Escolhi criteriosamente o líquido que me conduziria a um estado de transe onde tudo seria relativizado, tornando-se distante, tão distante que pareceria passado... ultrapassado... daria até para sorrir com alguma complacência quando me aflorasse à lembrança...
Não era fácil. Havia tanto por onde escolher. Olhei para cada vidro e todos pareciam guardar um segredo diferente, extremamente apetecível, tentador... translúcido, mate, opaco, incolor, tinto, rosé, âmbar, verde, sépia, uma paleta veneziana diante do meu olhar ávido e da minha indecisão constante.
Abri um por um e fui sentindo desilusão. Lembro de me perguntar como poderia alguém tragar semelhante borrasca e ainda tecer-lhe louvores, cantá-la em verso, apelidá-la de "néctar dos deuses"! Seriam diferentes. Não duvido. Haveria quem pudesse distingui-los, mas para mim havia um odor comum, penetrante, etílico, quase corrosivo que me arrepiava e impedia de apreciar os aromas da terra, da casta, do sol, do ar, da fermentação... Definitivamente desgostava-me.
Mas tinha ido visitar o "santuário de Baco" com uma missão. Que importava se conseguia ou não apreciar? Não tinha sido exactamente a minha crescente incapacidade de apreciar fosse o que fosse que me havia levado àquela procura? Pois bem. Decidi emborcar o primeiro que agarrasse, fechados que estavam os meus olhos de tanto me agoniar. Tive de suster a respiração e fazer escorregar a custo dezenas de graus pela garganta. Ardia-me tudo. Ainda cuspi um naco de rolha que se desfizera graças ao mau jeito para sacá-la. Senti o corpo estremecer e um sabor a sótão abandonado na boca. Mirei a garrafa e tresli. Tentei focar e pareceu-me distinguir Johnny-qualquer-coisa no desalinho das letras. Devo ter proferido um chorrilho de impropérios, insultando o tal Johnny.
Desci as escadas para enfiar o Johnny no lixo. Senti os degraus ondularem debaixo dos pés. Galguei o último e deslizei no chão da cozinha. Achei uma certa graça. Continuei, de gatas, agora no intuito de subir as escadas para voltar ao quarto. Tarefa homérica que terá demorado cerca de 10 minutos, à razão de 1/2 por cada degrau. Consegui trepar a cama e adormeci de bruços.
Não sei quanto tempo estive a destilar, mas sei que acordei de rompante com um solavanco no estômago. Nem tive tempo de alcançar a casa-de-banho. Precisava de me largar novamente às escadas, desta vez para arrastar uma colcha que precisava de urgente lavagem. Não me lembro de que programa escolhi mas sei que me esqueci do amaciador, a avaliar pelo posterior comentário da minha mãe sobre a aspereza da dita. Voltei a adormecer num qualquer banco da cozinha até que o telefonema da minha avó me alertou para o facto de terem passado duas horas da combinada para jantar.
Á pressa, tirei a colcha da máquina e estendi-a, tentando apanhar todas as molas que caíam como tordos à minha volta. Voltei a trepar as escadas para tomar um duche rápido, tão rápido que nem deu tempo para me lembrar de tirar as calças antes. Adormeci uma vez mais, desta debaixo do chuveiro. Novamente o telefone e a avó aos gritos. Gritos não, por favor!
Meti-me a caminho, muito tonta, e juro ter visto a duplicar! Nunca antes acreditara que fosse possível. Mas é. E tive de ver logo dois cães correndo para mim! Pareceu-me ouvir ao fundo «Não se preocupe que ele só quer cheirá-la!». Logo a mim que tinha um bafo sórdido! Afastou-se (afastaram-se, juraria!) e prossegui trocando os passos.
À porta da minha avó ainda tive a presença de espírito de meter uma pastilha à boca "para disfarçar". Não tinha fome. Sentia-me enjoada até à mais ínfima molécula. Não comi. Em compensação, passei toda a santa noite a revirar-me, deitando de mim líquidos e cores que seguramente não tinha ingerido.

Não era suposto ter corrido assim. Estava convicta de ter exagerado na dose. Haveria de conseguir acertar e sentir o Nirvana de que falavam. Voltei a tentar mais duas vezes e consegui chegar a gostar do efeito. O pior eram os momentos que antecediam e sucediam a parte boa - o sacrifício de engolir e a ressaca do dia seguinte. Ainda assim valia a pena (?) Mas não foi assim por muito tempo, pois cedo veio o dia em que cuspi a única gota que me tocou na língua. Nunca mais, desde então.


Ebriez

Cátia Mourão, Ebriez

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 3- Depressão
Partilhas

A alienação temporária da realidade... Ainda bem que foi só isso para ti.
Beijinhos

Partilhado por: Twilight em novembro 7, 2004 09:14 PM

Esta crónica escapou-me... é a 1a vez que a estou a ler...
Eu só me refugiei no sono mesmo... não me agrada o sabor do alcoól... ao menos isso...

Partilhado por: gata em setembro 20, 2004 01:27 PM

Em momentos da Depressão particularmente críticos, muita gente refugia-se na bebida ou em
drogas, o que não só não resolve o problema de base, como piora ainda mais o sofrimento.

Partilhado por: Carlos Martins em julho 9, 2004 06:50 PM

Este espaço atingiu o limite de comentários directos aos textos mas pode ler mais no
Livro de Partilhas