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abril 30, 2004

Crisálida

Encontrava-me outra vez prisioneira.



Escrevi em Julho de 2000:

«Encontro-me outra vez prisioneira desta casa. Agora também prisioneira deste corpo, prostrada, entorpecida nesta cama.
Não posso fazer nada.
Também não quero fazer nada.
Já não quero fazer nada.

Fizeram-me um casulo de lençóis. Estou nele há cerca de um mês como uma crisálida, dormente, sentindo o corpo transformar-se noutro que não é o meu, que não é aquele pelo qual tanto me privei...
Alimentam-me de quando em quando e voltam a adormecer-me. Ao longe oiço murmúrios. Não percebo o que dizem.
Talvez seja melhor assim. Não quero mesmo estar acordada ou voltar a sentir seja o que for; não quero tão pouco abrir os olhos e rever este papel de parede cor-de-rosa às florinhas, forjando a realidade. Antes tivesse grafitis! Também não quero constatar que me confiscaram tesouras, x-actos, espátulas, frascos; não quero olhar para a porta e vê-la entreaberta, sabê-la sem chave...

NÃO QUERO NADA! - a não ser que me reforcem a dose e me adormeçam DE VEZ!»

Crisálida

Cátia Mourão,

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 3- Depressão
Partilhas

Admiro a coragem de todos os familiares. Lidar com pessoas nesta situação acorda muitos medos adormecidos pela rotina.
Força! Beijinhos

Partilhado por: Carlos Martins em outubro 15, 2004 04:58 PM

Uma das coisas que mais me chocou (chocou é uma palavra muito forte...) nos primeiros tempos pós-tentativa de suicídio foi a falta de confiança que depositavam em mim. Objectos cortantes, medicamentes e químicos, janelas e portas,... tudo foi posto fora do meu alcance. Isso afectou-me um bocadinho porque vinha do hospital cheio de desejos, promessas e vontades para recomeçar tudo de novo... e depois deparo-me com este inóspito, mas compreensível, cenário de desconfiança. E o tempo a tudo nos habitua...

Partilhado por: NeverLess em agosto 18, 2004 10:41 PM

Concordo plenamente! ;) Força Cátia. ;)

Partilhado por: catarina em maio 5, 2004 12:04 AM

Olá Cátia.
Há tempo que todos esparávamos que escrevesses.
Li agora os teus últimos textos. São muito expressivos e as imagens que conseguiste para acompanhar são muito bonitas.
Quem escreve assim é capaz de outros feitos maiores.
Força!...
Ficamos à espera.

Partilhado por: João Norte em maio 3, 2004 04:55 PM

Este espaço atingiu o limite de comentários directos aos textos mas pode ler mais no
Livro de Partilhas