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abril 27, 2004

Último acto

A existência tornava-se insuportável e sem sentido...



Via apenas um único fim para aquela peça dramática onde me sentia a única personagem que restava no palco. Aliás, todo o teatro estava vazio e permanecia na penumbra desde que a lâmpada se apagara e eu embatera nela, precipitando-me no chão entre os estilhaços. Decidi que sobre mim cairia o pano e que a noite poderia tomar conta do espaço.
Seria o ...
Escrevi-o em Junho de 2000:

«Cortei a carne e arranquei o desespero das veias, deixando-o escorrer pelas mãos
lentamente
tão lentamente que ainda mo apanharam
coseram-no com um espartilho de linhas para que não voltasse a escapar
e adormeceram-me para que não voltasse a sentir o tentador apelo da fuga»

Lâmpada

Cátia Mourão,


Corte

Cátia Mourão,


Ligada

Cátia Mourão,

...

Mas voltei a escutar a memória das palavras de uma outra morte iniciática:

«(...) Às onze e meia da noite
a Primavera passou-se
para o lado do Outono.
E uma Maria qualquer
nas alamedas do sono
cansada de ser mulher
às onze e meia matou-se.

Em ponto. São onze e meia.

Esta noite os redimidos
hão-de fazer por esquecer.

Bem comidos e bebidos
não tardam a adormecer.

E um frasco de comprimidos
na mesa de cabeceira
vai ajudar os sentidos
a cozer a bebedeira.

Às onde e meia da noite. (...)»

Joaquim Pessoa, excerto do poema «Balada das Onze e Meia»,
in Português Suave, Litexa Editora, Lisboa, 1979.

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 3- Depressão
Partilhas

O futuro sempre constituíu para todos uma incerteza, atraíndo e repelindo ao mesmo tempo, fazendo girar em turbilhão sentimentos e expectativas contraditórias, mas também fascinantes. Situações de desespero aflitivas e de abismo são o oposto da vida. E é nestas alturas de desespero que pensamos que não há saídas, enfim, saídas há sempre, mas como fazer entender isso a quem não as vê?

Partilhado por: Carlos Martins em outubro 12, 2004 01:25 PM

... a ideia passsou-me pela cabeça, claro, mas foi só mesmo passar. Várias vezes, mas com a mesma rapidez com que vinham, também iam. Nunca chegou a ser sequer uma hipótese. Falta de coragem, não só da dor como de deixar quem eu gostava... Felizmente para mim...
Felizmente para mim também que tu não conseguiste, que te agarraram cá, a tempo. Valeu a pena =)

Partilhado por: gata em setembro 20, 2004 01:33 PM

É preciso uma coragem extrema para se conseguir pôr em cena um último acto deste tipo. Mas nas alturas de maior desespero encontramos forças inimagináveis que, infelizmente, só conhecem um sentido único - a autoflagelação. Mas, talvez resida aí o benefício deste instinto que, na maioria das vezes, transforma aquele que nos parecia ser o último dos actos numa mera troca de costumes.

Partilhado por: NeverLess em agosto 18, 2004 10:34 PM

... desesperado! Felizmente nunca cheguei a este estado. Talvez porque nunca ninguém me deixou um MINUTO sequer sózinha! ;)

Partilhado por: catarina em maio 5, 2004 12:01 AM

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