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maio 04, 2004

A Carta

Dentro de um casulo, no isolamento silencioso desse meio morno e húmido, a crisálida largava de si uma fina película de lembranças.


Guardei uma película solta em Agosto de 2000:

«Nunca te escrevi...
Falo de cartas como todos os amantes escrevem e não de fortuitos postais testemunhando a presença longínqua num qualquer país...
Porquê?
Talvez por temer deixar marcas de intimidade que outros pudessem devassar...
Sempre esperei que o meu segredo mais precioso fosse apenas conhecido por ti,
apenas partilhado com
o vento,
a chuva,
as sementeiras
...

Escrevo-te agora,
sem que o saibas.

Escrevo-te agora
para que fique registado.
[e já sem medo que os tais outros leiam, saibam, pensem]

Pena é que esta não seja uma carta
arrebatada,
apaixonada,
embriagada!
Seria mais belo,
menos decadente,
menos inútil...
Mas é agora que preciso de escrever,
talvez porque agora já não te possa falar,
talvez porque agora já não valha a pena falar-te,
talvez porque agora as palavras tenham uma sonoridade coada pelo tempo,
talvez porque agora já nem tenha com quem falar sobre ti,
talvez porque agora só o papel me oiça e me aceite (ainda?).»


Soltas as películas e as palavras, não tardaria para que a crisálida iniciasse o processo de transformação.

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 3- Depressão
Partilhas

Revelas a ideia de que és um ser muito sensível e belo, algo de poético corre dentro de ti pela maneira simples, mas imensamente confortante da tua escrita! Gostei muito!

Partilhado por: Carlos Martins em setembro 30, 2004 05:09 PM

Sublime esta carta. Porque as coisas mais belas não se fazem só de arrebatamentos...

Partilhado por: NeverLess em agosto 18, 2004 10:49 PM

não tenho cabeça para ler, mas tenho andado por aqui de novo... prometo que volto daqui a uns tempos para te encontrar no que escreves agora.
não te preocupes comigo porque neste momento a depressão ou eminência dela é o que menos me preocupa.
um beijo

Partilhado por: gata em maio 9, 2004 01:23 PM

Vale sempre a pena falar, vale sempre a pena escrever.
Enquanto escrevemos vivemos.

Partilhado por: Joao Norte em maio 6, 2004 10:33 AM

Parece-me familiar! ;)

Partilhado por: catarina em maio 5, 2004 12:05 AM

Este espaço atingiu o limite de comentários directos aos textos mas pode ler mais no
Livro de Partilhas