maio 24, 2004Lá foraO tempo de incubação chegava ao fim. Era forçoso que chegasse. Um som agudo quebrou a cristalização do ser, rasgou o silêncio da pele, despertou o corpo dormente da letargia uterina e intemporal, expelindo-o para um estreito limbo entre a transcendência e a realidade. Na tangencia das duas dimensões existia um vácuo, uma ausência latente onde o absoluto e o nulo se fundiam, onde nenhuma referência tinha sentido, onde não existiam palavras ou conceitos, onde a comunicação era interditada pelo isolamento da forma, pelo desajustamento de qualquer ideia, gesto, verbo ou código, pela inconsequência do concreto ou do especulativo. Vagueava na constância do desequilíbrio, experimentando fenómenos de desrealização e desmaterialização, ora flutuando, deslizando ou articulando movimentos entorpecidos, coagulados, primeiro sem rumo definido, depois com forjados propósitos... Tornava-se fundamental reconstruir referências, normas e, principalmente, hábitos. Percebi que a capacidade de decisão era o fio condutor entre as duas dimensões. Decidi então que arranjaria um emprego para lançar uma âncora na realidade através da projecção exterior de uma obrigatoriedade de cumprimento da rotina de hábitos... o primeiro passo para quebrar a inércia e o isolamento. Diariamente repetia o mesmo percurso, as mesmas linhas condutoras do lancil do passeio, as mesmas palavras, os mesmos rostos, as mesmas teclas, os mesmos movimentos, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre com a mesma música de fundo, colada nos ouvidos, obsessivamente repetindo acordes, letras, ritmos, cadências que pautavam uma existência desarticulada e ainda questionada, presa por finas terminações nervosas em desalinho. Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 4- RecuperaçãoPartilhas
Não existem momentos monótonos; são fases de maior desmotivação, que trazem o desânimo. Quando esses momentos surgem, a única coisa a fazer é transformá-los, invertendo a nossa óptica sobre os acontecimentos e confiando na criatividade (por exemplo pintar, ouvir outras músicas...) Partilhado por: Carlos Martins em julho 8, 2004 06:44 PMa capacidade de decisão é mesmo o caminho...? eu ainda não sei... pensei que tinha ultrapassado a depressão, mas continuo no meio dela... Partilhado por: gata em junho 2, 2004 07:43 PM |
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