|  Translation  |

maio 26, 2004

RE(começo)

Lentamente começava a atrever uma fuga ao tom, a arriscar uma nota acima da escala, um passo fora do lancil, uma palavra outra a outrem que me interpelava na rotina.


O olhar seria tão vago, a expressão tão apática, a presença tão ausente, os gestos tão paralisados, o desequilíbrio tão eminente que despertariam ímpetos de reacção noutros. Lembro uma vez em que a energia do MD se extinguiu com a exaustão do uso repetido e a música cedeu lugar aos sons do exterior. Ouvi e vi a reacção que despertei num pai e o moveu a explicar ao filho «é isto que faz a droga!» Como as aparências iludem e geram fatais equívocos!

Lembro também a vulnerabilidade ao som, ao toque, ao cheiro. Recordo um chamado em jeito de deleite, um olhar, um gesto de convite, um abraço forte, um beijo, um corpo a latejar, uma pulsação acelerada, uma envolvência - travada a tempo pela razão que tornara a desabrochar em mim sem que me tivesse dado conta...

Outros vieram assim, respondendo talvez a um secreto apelo dos sentidos que se regeneravam na dimensão da realidade onde fazia visitas furtivas com maior frequência. Sentia, talvez, uma estranha necessidade de reviver experiências sensoriais, de revisitar trechos de coisas e pessoas, de reinventariar ficheiros de memórias há muito adormecidos no silêncio da espera pelo meu retorno. Recomeçara a desfazer e reatar nós, laços, sensações e sentimentos. Recomeçara também a pintar.

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 4- Recuperação
Partilhas

{ ...

alucinogénios (“morfina”) #3

ensaio para reescrever algo (pedaços soltos)

florar em cinzento (“morfina”)

sempre que aqui estou sentado nesta cadeira
puxo por um cigarro e fumo a floresta calma
vendo a sorte responder “cinzeiro de morte”
divino desejo nesta pele forjada pelo tempo
em sedimentos moldado como lava, reclamo
nesta manha saudada, existência melhorada
deito-me, por fim, nesta cama, meu sonho e
de mãos partidas, doridas e amareladas. sei
o cinzento de lápis “morfina”, e deixo-me ir
cair no ruído da cidade molhada, de gentes
floreadas sem mentes lapidadas. graças em
vão, sentir e sonhar, relaxar de encosto dei
preces de nicotina nas mãos, e em todas as
direcções, reclamei, desmentir belezas, sei
veio em passos brandos, fazer crónica e dar
florar em cinzento “morfina”, meu... sonhar

“morfina” - leia-se: algo que cria dependência

© pipetobacco

beijos*

... }

Partilhado por: pipetobacco em janeiro 8, 2005 12:02 AM

texto muito bonito. Há uma riqueza de linguagem que facilmente expressa sensações.

parabéns! força!

Partilhado por: João Norte em maio 26, 2004 01:52 PM

Este espaço atingiu o limite de comentários directos aos textos mas pode ler mais no
Livro de Partilhas