novembro 03, 2004«Ebriésia», ou o EquívocoDesabituada de escrever no papel, passei a fazer anotações numa sebenta virtual, anónima e conceptualmente oposta à Sombra no Silêncio. Encetei a primeira linha num período em que a Sombra das memórias e tensões passadas começava a projectar-se no presente, apagando lentamente as minhas luzes de presença. Numa tentativa de reanimação do que em mim existira de espontâneo e sensitivo, jacente sob a crosta de conceitos e reflexões metódicas, ensaiei a ebriez das palavras como catalizador de emoções. O primeiro trecho foi sintomático da inoperância do modo, denunciando em cada letra «Sinto...
Cátia Mourão, banner do blog Ebriésia ... Quase todos os textos do Ebriésia denunciavam uma instabilidade emocional profunda que eclodiria na inevitável recaída... Não tardou para que encerrasse o espaço e encetasse outras linhas e outras experiências onde tentei o reencontro do Próprio no Outro por meio de um feedback diário, imediato e impulsivo, intencionalmente não reflectido para que resultasse autêntico. No entanto, constatei a potencialidade do equívoco comunicativo efectivado pelo filtro do ecrã, pela ausência de olhos, bocas, gestos ou expressões corporais. Por associação de ideias, lembrei toda a distância indelével entre a realidade e a ficção expressa nas palavras de outrem: «tudo é potencialmente equívoco. O que faço é exagerar, criando uma ficção à volta das imagens, mas a realidade também tem um lado ficcional.» excerto de entrevista de Filipa César a Celso Martins, No fundo não existia diferença. Afinal também eu acabava por tornar clinicamente metódico o mesmo meio para atingir um fim oposto à via mais óbvia. Diria mesmo que sempre criei uma ficção à volta de tudo... A virtualidade apenas facilitava o trabalho que sempre tivera no campo do concreto. Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 5- RecaídaPartilhas
{ ... por mais voltas em círculos que dou [tente] não consigo seguir [nunca ir] em frente © de[mente] ... encontro [eu] a palavra "ébrio"[alucinado; sequioso] ... }{ beijos* } Partilhado por: de[mente] em janeiro 4, 2005 10:52 PMGata, tenho de discordar do carlos - acho que a internet só é vazia na medida em que nós a tornamos assim e falta de sinceridade e pureza há em todo o lado e todos os dias, na internet e principalmente fora dela... mas sim, temos de ter cuidado com a forma como nos expomos aqui. o meu blog é um desses narcisistas e sem conteudo, lol. é mesmo assim que eu preciso dele - e foi graças a ele que conheci a sombra, e estou muito contente por isso ter acontecido. porque esta amizade já não é só virtual! Cátia, creio que o trabalho artístico, a reflexão filosófica, o estudo psicológico, etc, sobre nós próprios e sobre os nossos problemas é um caminho para sair deles... A avaliar pelo seu blog, creio que tem consciência disso, desse caminho. Não o esqueça (a esse caminho) nos momentos em que a noite parece demasiado escura... Eu não sou os meus problemas. Pode ser que eles me atormentem, pode ser que eles estraguem a minha relação com os outros. Porém, eu e eles somos distintos. Eles apenas existem através de mim... Um sorriso, Bem Sombra, fico assim de repente sem palavras para escrever, mas isto passa, ai se passa [...] aliás está a passar, como podes ir averiguando ao longo deste texto fluído, inteligente e absurdo, ao mesmo tempo. Não gosto, em princípio, de falar ou escrever sobre aspectos de vida que não entenda, e este que aqui é focado não o entendo em absoluto. Mas acredito que tenhas razão. Também não vejo o problema dimensional que alguns querem atribuir aos convívios pela Internet. Tudo depende de tudo e não depende de nada. Isto aqui é, claro, um mundo perigoso. Mas também não conheço outro que não o seja. E o que fazemos por aqui, apesar de todos os contras, tem muito que ver com a sociabilidade para onde caminhamos. E com tendências dramáticas. Nem sequer ouso pensar onde possamos chegar ou não. Quem sabe... O futuro aproxima-se a cada instante. Pode ser um grande problema que se avizinha; podemos ter um mundo com pessoas individualistas que pensam que fazem e conseguem tudo pela internet como o contacto físico, a aproximação dos outros, dos próprios sentimentos, emoções, valores, pois, na internet, todos estes conceitos perdem o significado. Está-se a criar uma sociedade fútil e vazia, artificial, sem valores morais. As pessoas não se estão a dar conta de que as maiores prejudicadas são elas mesmas. Isto acontece por exemplo em sites e blogs exibicionistas mas desprovidos de conteúdo, frutos de uma época narcisista e esvaziada. Tenho as mesmas dúvidas que o AdamastoR. No messenger, por exemplo, ficamos muitas vezes com a sensação que conhecemos as pessoas com quem teclamos. Chegamos a acreditar que fazemos amizades. Já me desiludi mas também já tive boas surpresas :) Mas até que ponto é virtual a partilha com alguém invisível / desconhecido? Até que ponto existe um interlocutor catártico? Ou isso não interessa, sendo o desabafo eficaz mesmo se não for ouvido / lido? |
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