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dezembro 06, 2004

Transmutação

A calote da estação quente sufocou-me. Despertou em mim a ideia de desistência e o desejo de transmutação.



Lembro-me de sentir o desalento numa tarde de canícula, depois de uma contrariedade insignificante e eivada de mal entendidos se ter abatido sobre uma vontade alegada por pretextos insípidos. Pesaram-me os músculos e a consciência. Antecipei a hora de saída após uma mórbida limpeza dos ficheiros no computador e meticulosa arrumação da secretária. Fiz deslizar a chave do armário para dentro de um envelope onde escrevi o nome de outrem a quem confiaria os resultados de 3 anos de investigação. Entregava tudo. Desistia de tudo. Colocava um ponto final em tudo.
Toda a viagem até casa foi feita sem vacilar, mas quando abri a porta e vi os dois gatos felizes com o meu regresso, reconsiderei. Afinal não estava disposta a abrir mão de tudo por miudezas de contornos pouco claros.
De facto, tudo tem um fim, mas entendi que o fim de certas coisas não tem de ser encarado como o fim apocalíptico e sim como um processo natural de sucessão. Talvez não fosse caso para a desistência. Talvez resultasse uma transmutação de estado... Estava capaz de trocar de corpo e rosto até com alguém que não conhecia, apenas para fugir ao cansaço de mim mesma. Imaginei, um dia, que me transmutava com uma pessoa de quem ignorava o próprio nome mas que precipitadamente julguei feliz apenas pelo sorriso forjado na obrigação das manhãs:

«Vejo-te sempre, desde que começas a descer a rua interminável no sentido contrário ao meu. És a primeira a quem desejo bom dia. Prendo o olhar no corpo de lince, nos movimentos elásticos, nos passos largos e firmes; fixo cada peça que trazes, cada corda de cabelo, cada sorriso nos lábios grossos, cada reflexo na pele negra.
Hoje tenho vontade de te pedir que troques comigo de corpo. Estou a precisar de mudar o meu. Dou-te a minha cor de luz em troca da tua escuridão. Se soubesses como ontem desejei transformar-me em alguém diferente, em ti, por exemplo, depois de ter tropeçado e caído... Teria sido tão mais fácil termos trocado de pele dentro de uma qualquer casa-de-banho onde entrei para esconder a vergonha e deitá-la pelo cano, afogando-a com um grito junto com outras mágoas... Teria saído como nova! Mas saí de lá a mesma, com a mesma pele vermelha da sova de areia que o vento me deu enquanto avançava pelas dunas e percorria com os dedos as cristas de sal, queimada pelos raios do primeiro Estio... Saí com a pele do rosto ainda mais salgada, cortada pelo pranto que teimava em não parar; saí com o corpo ainda mais entorpecido e desajeitado pela fuga de veneno; saí ainda mais rastejante com o peso do orgulho e da falha...
Hoje preciso que me deixes abraçar-te e trocar-me contigo. Quero passar na rua e ser confundida contigo; quero que vejam em mim essa cor castanha, essas tranças corridas, esse corpo esguio, esse rosto sem nome, sem memória, sem lugar... sem o cansaço do eu...»

Transmutação, Cátia Mourão

Cátia Mourão,

Passado um mês soube-lhe o nome. Recusei o café. Continuei a preferir a calçada. Quebrou-se o desejo de transmutação quando lhe conheci o vício do tabaco, a dieta de carne, a saga dos dias, a terminologia chã. Ainda estava pior que eu. Ainda era pior que eu. O modelo não servia. A mudança não podia ser por ali. Por onde, então?

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 5- Recaída
Partilhas

Convém usares esse poder mental que tens para imaginares coisas bonitas e boas a teu respeito quando te sentires nesse estado de auto-depreciação e falta de amor próprio. É que não te respeitas nem te sentes suficientemente qualificada. Não dás valor às tuas qualidades e achas que as dos outros são sempre melhores.
Tenta tranquilizar mais, pensar menos nos outros e mais em ti para que possas melhorar sempre.
[Achei óptima a imagem!]

Partilhado por: Carlos Martins em janeiro 24, 2005 01:13 PM

Espero que estejas bem.
Bom ano.

Partilhado por: Concha em janeiro 6, 2005 11:56 AM

{ ::: [boas saída.s e melhore.s entrada.s][saúde] ::: }

Partilhado por: o5elemento em dezembro 31, 2004 11:27 AM

Cátia, as tuas palavras interferem com os meus sentimentos [...] de tão cuidadas e tratadas que são.
Existe somente um senão. Essa tendência para dramatizar tudo, ou quase tudo ao teu redor.
Mas espero que isso passe e depressa.
Quero desde já desejar que tenhas umas boas entradas em 2005.

Partilhado por: Espectro #999 em dezembro 29, 2004 01:29 PM

Obrigada pela visita que fizeste ao meu Abismo, inclusive porque a mesma me permitiu vir aqui. O teu blog é/será uma referência para mim. Voltarei e comentarei. Conto tb contigo lá no meu canto e com o teu eventual contributo para o "debate".
Um grande beijo para ti e tudo de melhor.

P.S- Caso queiras contactar-me de outra forma, utiliza o meu endereço de e-mail à vontade que é igual ao do MSN. Iria gostar muito :)
PS2- Anais Nin, sim, por quê? ;)

Partilhado por: Sandra em dezembro 29, 2004 08:52 AM

Cátia, já chega [...] agora é a hora de acordar desse pequeno torpôr que te atingiu e partir para uma nova vaga de extenuantes e sensíveis textos de bem escrever e sentir.
Toda a minha força vai ao teu encontro e somente nesse sentido as coisas terão o seu quê de anormal.

Partilhado por: Espectro #999 em dezembro 16, 2004 07:52 PM

Continuas a tornar bonitas as coisas que, normalmente, não o são...
Bjs

Partilhado por: Ana M. C. em dezembro 16, 2004 06:05 PM

Primeira visita.
Serão muitas.

Partilhado por: Concha em dezembro 9, 2004 11:50 AM

Pois... por onde, então?

Partilhado por: Kurtz em dezembro 7, 2004 01:43 PM

Cátia [...] é-me particularmente difícil dissertar sobre estas matérias, até porque ando bastante afastado delas, pelo menos tento.
No entanto e vendo o final de transmutação veio-me à ideia que afinal tiraste uma boa ilação sobre o fundo da questão, que é... nunca seria uma boa ideia transformar-mo-nos noutras pessoas, muito menos desconhecendo quem elas realmente são. Gostei da profundidade que lhe imprimiste e gostei da imagem.

Partilhado por: Espectro #999 em dezembro 6, 2004 07:22 PM

a imagem está muito boa e o texto também. e eu digo sempre isto... a única coisa que realmente tenho a dizer de diferente é: TENHO SAUDADES TUAS!!! :(
não sei como estás, conta me de ti...

Partilhado por: gata em dezembro 6, 2004 07:15 PM

Gostei muito do teu blog.
Afinal não estou sozinho e tu não estás sozinha.
Bom resto de Domingo.

Partilhado por: João da Cal em dezembro 5, 2004 06:36 PM

Porque abandonei as sessões de psicoterapia?

Acho que não sei bem ao certo responder a esta questão. Em primeiro lugar, acho que pensava que já estava bem, ou pelo menos, consideravelmente estável e que já me conseguia aguentar sozinha. Sempre tive um bocado a ideia de que tenho que ser a “super-mulher”, que tenho que ser forte e, estar em tratamento, dava-me a sensação de estar a ser fraca, de precisar de ajuda. Não queria ser “dependente” de nada, nem ninguém. Depois acho que tinha medo, medo de ficar “dependente” e medo de me descobrir fraca, uma pessoa “pobre de espírito” (se é que isso existe…), um grande, terrível medo de me conhecer, por medo de não gostar (ainda mais) do que eu era, no ser em que me tinha transformado. Um medo, um medo grande, um medo terrível, um grande medo do próprio medo, do desconhecido, do meu inconsciente.
E este medo foi crescendo cada vez mais e, hoje, tãooooo grande… mas não me pergunte medo do quê… nem eu sei… medo… medo do medo…medo da vida, medo da morte, medo de mim. Um medo que me assusta, me apavora. Medo que este medo se apodere de mim, medo de enlouquecer. Medo de voltar a ter ataques de pânico, que não como nem porque surgem…do nada. De dentro de mim, acho que deste medo que tem vindo a crescer de um modo desmesurável dentro de mim e que me vai aterrorizando a cada segundo que passa.
Andei uns tempos, em que acho que posso dizer andava bem. Mas depois com o “stress” do dia-a-dia, do trabalho, a correria, as preocupações… tudo se começou a acumular e os sintomas da depressão voltaram a surgir (será que algum dia chegaram a desaparecer?!) e a ansiedade começou-se a apoderar de mim. Os nervos… sempre muito nervosa; tremo muito, as mãos não param de se mexer involuntariamente.
Tenho medo, um medo muito grande de perder o controlo… acho que bem ou mal sempre me fui conseguindo controlar, pelo menos na relação com os outros, nunca deixei transparecer esta agonia tão grande que carrego dentro de mim como um fardo pesado, cada dia que volto a abrir os olhos.
Há alturas em que implico com tudo, e há outras alturas em que parece que estou ligada à electricidade, não paro, tenho que estar a fazer alguma coisa, tenho que falar, não posso parar… mas há outras alturas em que estou em baixo, muito em baixo… por vezes penso como é possível uma pessoa descer tão baixo, sentir-se tão miserável, sem vontade para nada…
Emagreci. Finalmente comecei a conseguir ter algum controle em relação à comida. Estou com cerca de 40 kg. A médica diz que é muito baixo para mim. O meu namorado diz que eu não como e que todo o meu problema se resume a fraqueza. Eu, por mim, sinto-me muito bem assim com o meu corpo. Não é para o mostrar aos outros que me sinto bem, mas agrada-me a mim especialmente. Não sei se tive a ilusão de que ao conseguir controlar o meu corpo, conseguia controlar a minha cabeça.
Emagrecer dava-me uma sensação de poder, não me pergunto nem como nem porquê. Simplesmente dava. Mas só sei que à medida que ia controlando cada vez mais o meu corpo, mais sentia a cabeça a descontrolar-se… e eu sem conseguir controlar isso…
Já me falaram em anorexia; não sei se a tenho ou não, não sei avaliar esse tipo de situações.
Aconteceu-me uma coisa realmente estranha. Ganhei uma anormal aversão a bifes. A única carne que consigo comer é frango e carne picada. Acho que ganhei “nojo” à outra carne, cada vez que penso nisso, fico mal disposta e a última vez que tentei comer um bife de vaca fiquei realmente mal disposta.
Ás vezes penso nisto e este comportamento assusta-me. Sei que talvez esteja errado, mas é mais forte que eu e não consigo parar.
Só sei que tenho medo, muito medo… de mim… talvez
Não consigo parar de pensar e pensar e pensar. Acho que começo a dissecar todos os pensamentos até ao mais ínfimo pormenor. Acho que penso demais. Tenho a cabeça sempre a andar a “mil”. Não consigo estar descansada, parece que tenho qualquer coisa dentro de mim que me perturba.
Não sei se acha que vale a pena retomarmos o processo terapêutico, uma vez que desisti, fui fraca e saí derrotada.
Também não sei o que sairá desta sessão. Só sei que estava completamente desesperada quando lhe escrevi o mail. Sinto que preciso de ajuda, senão acho que enlouqueço e não sei se consigo continuar.
Tenho coisas boas na vida, sei bem que sim, mas nesta altura tudo parece perder o sentido e tudo parece sombras, as quais não consigo alcançar.

P.S.: Será que a desiludi quando abandonei o processo? Acho que estou sempre a desiludir as pessoas, acho que nunca sou suficientemente boa.

Partilhado por: su em dezembro 5, 2004 01:01 AM

gostei disto. :)
(saudades)

Partilhado por: claire lunar em dezembro 4, 2004 07:26 PM

Mudança... em vez de fora para dentro, talvez de dentro para fora...
Não sei se gostei mais do texto ou da imagem.
Beijinhos

Partilhado por: Twilight em dezembro 3, 2004 10:12 PM

Num antigamente, Mogrom escreveu assim:


Quanta beleza
e nada sinto
e enquanto escrevo
minto

Arrefece-me a razão
Arrefecem-me os sentidos
Arrefece-me a palavra

já não é o coração
que me sopra a vida
mas sim uma qualquer

nuvem perdida

que o vento soprou

para o horizonte

nada querer
nada ver
é andar a monte
é suposto viver


depois Mogrom saiu desse antigamente, deixou de andar a monte pelas charnecas do sofrimento, pelos ermos das paixões quando percebeu que

a Vida tem que ser
sentida
vivida
bebida, não com sofreguidão,
não de uma vez,
mas suavemente, como quem acaricia um gato ao som de um ronronar de placidez.

Partilhado por: Mogrom em dezembro 3, 2004 11:42 AM

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