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novembro 12, 2004

Dor de Alma

A confluência da Primavera com o Ebriésia e outros acontecimentos quotidianos enfraqueceram-me como uma praga sobre os rebentos da recuperação.



Sempre acreditei que as Estações intermédias funcionam como prova de resistência para os seres vivos. O som dos aguaceiros, o desmaio das folhas, o cheiro da terra húmida, do mosto das uvas, o aroma das castanhas assadas, o sabor das romãs e da água-pé, a cor cinzenta das manhãs e a luz coada dos fins de tarde no Outono, induzem a uma melancolia depressiva; o canto dos pássaros no despertar do dia, o orvalho da madrugada sobre o verde, os primeiros raios de sol, o desabrochar das flores e das folhas, o odor doce do pólen na Primavera, exigem uma força anímica muitas vezes roubada pelo Inverno. Assim acontece comigo. Assim aconteceu comigo na última Primavera. Doeu-me a alma. Com essa dor tão pouco clara tentei objectivar o subjectivo, escrevendo:

«Como pode doer uma coisa que não se sente nem se agarra? No entanto, ela dói... E ainda não há médico que nos tire uma radiografia para localizar o epicentro da dor e extraí-la com simples ou complexa cirurgia. É por isso que primeiro os doentes da alma iam para a fogueira, depois para os hospícios e agora para o divã do psiquiatra... outros, andam por aí a vaguear no espaço cibernético, tão vago e inconcreto como a própria alma, ou afloram à pretensa realidade em busca de iluminação transcendente... continua a dualidade, a dialéctica da criatura humana no limbo entre as dimensões material e extra-sensorial, esmagada na tangencia de ambas, impotente perante a discrepância que existe entre o prurido que marca o sarar da ferida da carne e a cadência latejante de uma gangrena na alma...»

Morreram-me as flores e os rebentos dessa alma inconcreta, atacados que foram pela praga da recaída depressiva. Isolei-me e voltei a anular-me compulsivamente. Algo em mim impelia-me a uma destruição progressiva, subterrânea, e eu acedia diariamente ao portal desse registo como se esperasse a notícia que me aniquilasse de uma vez por todas. Que andei a fazer de mim? Onde foi a minha essência? Onde esqueci a sensatez? Onde perdi a "sanidade"? Para onde se extraviaram os conceitos? Alienei-me uma vez mais e senti que

                                        deslizava pela

                                                                      terra

                                                                                     fria

                                                                                               húmida


                                        com o corpo

|ainda|

                                        morno,

                                        as veias

|já|

                                        dormentes


                                        no silêncio de outra manhã

                                        cinzenta

                                        lenta



                                        com a carne gravada pela embriaguez

                                        do sangue


|no segundo|

                                        surdo

                                        ensandecido


                                        onde nenhuma palavra

                                        encontra

                                        sentido




Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 5- Recaída
Partilhas

recorda-me algo que escrevi:
{ ...
surpreendes-me com esta presença, fonte de porte em modos aparentemente físicos e em face, com actos e sorrisos, verdadeiros se não escondes. sinto certa e genuína tal aflição, de contornos profundos, dos nossos gestos e carícias. envoltos em lã tecida em agrado e ternura, perdura a fonte, levantam-se agrados, volúpias do sempre e agora. é forte teu chamar em mim, que sólido bate em teu rosto de amar. surpreendes-me com esta delícia, satisfação sensível ou sensual, verdadeira por sinal, protecção de momento de teu alento de medo a perder-me. em salvas de ternura a florescer em nós unidos e sós como as cordas de um navio atadas em nós, torcidos um no outro, o nosso amor envolto de dor e calor, em ambos de espírito e calma, em final de silêncio findou. surpreendes-me com esta ternura, fonte de sorte em modos aparentemente carnais e em verdade, com actos e afagos, verdadeiros se não finais. surpreendes-me com cuidado e amor.
© pipetobacco
... }

Partilhado por: pipetobacco em dezembro 30, 2004 03:46 PM

Sombra, estamos vivos e isso é fantástico [...] pois se assim não fosse também a esta hora não estaríamos a interagir desta forma, não achas?

Partilhado por: Espectro #999 em novembro 30, 2004 08:37 PM

Como podem os médicos, simples mortais, radiografar o que dentro de nós, umas vezes escorre esvaziando-nos, outras esfuziante sai por todos os poros, com mais luz que o Sol, com mais cor que as da paleta da Natureza.
As estações intermédias são prova de resistência, mas também nos preparam para melhor enfrentarmos inclemências extremas.
Não concordo com a comparação entre o espaço cibernético e a alma. É que como dizes e muito bem, a alma dói como se materializasse o nosso sofrimento interior, enquanto que na cibernética se há alguma materialização, julgo que será só a do espaço que está imediatamente para lá do ecrã do monitor, materialização essa tão fugaz que qualquer click a esconde da nossa percepção mediata.
Por vezes...
                    Já não encontro força nas palavras
                    para dizer o que quero
                    e o que não quero;
                    dizer e já um hábito perdido.
                    A vida é um conjunto de horas
                    que encadeiam os dias,
                    os dias, os dias;
                    e os dias juntos
                    mostram o caminho
                    ao fundo do qual está a casa fria das
                    memórias

Partilhado por: mogrom em novembro 13, 2004 09:35 PM

é isso mesmo, carlos; sombra, também preferia não saber do que falas...

as estações intermédias são as minhas preferidas, mas foi na primavera que caí e na primavera que recaí. confesso que tenho receio da próxima primavera... apesar de saber e sentir que estou mais "sustentada" e "centrada". mas... acabamos por ficar "seropositivos" da depressão depois de cair nela... digo eu...

tenho saudades tuas...

Partilhado por: gata em novembro 12, 2004 09:56 PM

A depressão pode levar uma pessoa até o fundo do poço emocional. É quando ela perde o contacto com a realidade que não aceita, sente-se vazia, sem perspectiva, uma sensação de estar sem vida, sentimentos de desesperança e desamparo.

Partilhado por: Carlos Martins em novembro 12, 2004 07:01 PM

Como sempre, Cátia, tens razão!
Como eu gostava de não compreender do que falas...

Partilhado por: Ana M.C. em novembro 12, 2004 04:04 PM

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