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outubro 26, 2004

A Teia

«Ya entonces tenía el hábito de escribir las cosas importantes y más tarde, cuando se quedó muda, escribía también las trivialidades, sin sospechar que cincuenta años después sus cuadernos me servirían para rescatar la memoria del pasado y para sobrevivir a mi propio espanto.»

in La Casa de Los Espíritus, Isabel Allende,
I capítulo: Rosa, la bella, 1982.



Ao longo de 5 anos fui fazendo registos da travessia depressiva. Avessa a novidades desde que aprendera a dar um laço nos atacadores, anotava tudo com caneta de aparo e tinta permanente sépia. Já o meu pai escrevia directamente no teclado do computador e eu ainda me recusava à frieza impessoal da máquina de escrever. Mesmo assim, aceitava melhor a objectividade das teclas martelando o papel através da fita vermelha e preta, do que o ecrã onde, por vezes, as palavras eram engolidas e caiam no esquecimento de pólos metálicos. A relação que tinha com os computadores baseava-se na total desconfiança e na agressão física do hardware, acompanhada de insultos berrados ou escritos ao office assistant do Word.
Das guerras intestinas com a máquina havia saído a promessa de um boicote à internet, apenas levantado por orgulho depois de me fazerem engolir um «não tens e-mail porque és uma retrógrada chata». No mesmo dia, instalei o outlook express e não tardei a receber um link para um blog, em jeito de convite a "meter o nariz" na vida de alguém. Percebi que se tratava de uma moda onde meio mundo se expunha e exibia, às claras ou escondido atrás de um pseudónimo, com direito democrático a 5 minutos diários de tempo de antena. Inicialmente não entendi a pertinência ou utilidade, mas, com o tempo, a rede de links conduziu-me a certos espaços que me prenderam a atenção e levaram a estrear os "favoritos". Sem me perceber fui ficando presa na Teia de alguns deprimidos (como eu) que usavam os blogs como forma de catarse.
Quando me senti melhor, mais fortalecida e mais distante do conteúdo depressivo registado nas resmas de papel que escrupulosamente escrevia, resolvi estrear o formato virtual. Soube desde o início que não viria a usá-lo como diário on line, negando, por conseguinte, a essência do espaço. Tão pouco admiti a hipótese de uma exposição pública, mesmo assumindo o nome, posto que versaria exclusivamente sobre elementos relevantes ao entendimento do processo depressivo e jamais questões de carácter pessoal. Assim o blog pareceu-me o modelo adequado para exercitar a memória, pôr os acontecimentos em perspectiva, entender o que se passou, exorcizar possíveis resíduos incómodos e partilhar a vivência para que outros se sentissem menos sós.

A experiência virtual trouxe-me resultados insuspeitáveis. Penso que o facto de ter quem lesse as crónicas me fez continuar o projecto sem desistir, o que terá sido afinal mais profícuo para mim do que para os outros, uma vez que consegui criar de mim algum afastamento crítico essencial à auto-análise. Graças ao motor editorial do blog, passei a escrever directamente no teclado - sem as habituais agressões - e, como é habitual em mim, atingi o extremo da incompatibilidade com o papel (desconfio que troquei definitivamente o bloco de notas pelo pc portátil). Quase sem dar por isso, comecei a explorar o html e o javascript para melhorar a funcionalidade e o aspecto estético do espaço, ganhando um tal à-vontade que me aventurei na criação de um portfolio on line.
Também deixei de começar o dia com o longo bocejo de tédio, passando a encontrar um deleite viciante no passeio matinal pelos urls dos "favoritos". No entanto, talvez a consequência mais relevante do enredo na teia da blogosfera tenha sido a descoberta dos conhecimentos virtuais...

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 4- Recuperação
Partilhas

{ ... que existe como faculdade [] mas sem exercício [ou] efeito actual © exactu ... }{ beijos* }

Partilhado por: exactu em janeiro 4, 2005 10:56 PM

Deixei a faceta de "jornalista/escritora" lá atrás! Às vezes tenho pena porque, como "alguém" disse (vocês sabem quem), poderia ajudar pessoas se relatasse tudo o que aconteceu comigo, nestes últimos dois anos! Entretanto, vou mantendo o meu blog levezinho, com dicas para sorrir e viver melhor (e sem transcrições do "famoso cd"). ;) beijos e obrigada por me teres dado oportunidade de partilhar este espaço. ;)

Partilhado por: catarina em outubro 29, 2004 12:03 AM

Ao contrário da escrita à mão e à máquina, o computador permite emendas e acréscimos com uma velocidade surpreendente. Através da internet, a Teia mundial da informação fortalece-se com sites, blogs e fóruns onde se veiculam ideias e discutem visões do mundo, dando a sensação de que não há limites... Sem dúvida nenhuma que a internet contribuiu para uma vida mais interessante e rica. Sobretudo para quem quer sair da Depressão, estes meios trouxeram mais conforto e esperança de encontrar pessoas com problemas semelhantes que cedam parte do seu tempo para conversar e trocar experiências de forma muito positiva. A net felizmente tem contribuído para que a entreajuda aumente.

Partilhado por: Carlos Martins em outubro 28, 2004 07:49 PM

Delírios de escrita transcrita para o écran.
Cada qual à sua maneira,
transmitindo sua ideia.

(no 'Galeão' entenderás o contexto deste trecho)

Partilhado por: Espectro #999 em outubro 28, 2004 12:22 PM

Passei também pela fase da transição da escrita em papel para o teclado. Confesso que hoje em dia já só muito raramente escrevo com papel e caneta... mas tenho saudades dos meus "blocos de notas".
Fico contente por te teres decidido a partilhar-te connosco.

Partilhado por: Twilight em outubro 27, 2004 09:26 PM

Ainda bem que te rendeste a este mundo!
Eu sou uma das beneficiárias porque passo muitas vezes por aqui e me sinto mais confortada quando aqui deixas mais um dos teus sinais de vida.
Beijinhos

Partilhado por: Ana M. C. em outubro 27, 2004 06:23 PM

Tens um espaço mui interessante.

Partilhado por: Poeta Noctívago em outubro 27, 2004 05:50 PM

Gostei muito do estilo, da pose, da escrita.
Linkei.

Partilhado por: AdamastoR em outubro 26, 2004 10:19 PM

fico muito contente por saber que o meu «Ninho» e eu fazemos parte dessa teia... =) ainda bem que decidiste criar o blog, pois passei a sentir-me menos sozinha e ganhei uma Amiga!

quanto a escrever no papel, eu era viciada nesse formato mas também o deixei. embora tenha pena, agora vem-me a preguiça para recuperar o hábito...
BEIJO!

Partilhado por: gata em outubro 26, 2004 02:13 PM

Este espaço atingiu o limite de comentários directos aos textos mas pode ler mais no
Livro de Partilhas