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janeiro 17, 2005

A Outra

Falhadas as tentativas de transmutação pela via externa, à erupção comunicativa sucedeu-se o refluxo do isolamento.



Voltada para o próprio avesso, constatei (uma vez mais) e escrevi que «o isolamento proporciona uma infindável viagem ao interior do ser individual. Nessa solidão a máscara social desvanece, mergulha-se num estado larvar onde se tecem verdades intrínsecas [sem correspondência com a realidade] e experimenta-se uma metamorfose no sentido inverso, ou seja do estado físico para o estado essencial do "eu". Passo por uma das mais complexas fases, algures no limbo entre a matéria e o transcendente.»
Numa das pródigas errâncias pelo terreno inconcreto dessa viagem, senti claramente que corria para a loucura na sequência da fuga a um episódio de pura desconexão emotiva. Hoje concluo que a loucura é uma fuga em si, voluntária ou inconsciente, desencadeada pela auto-negação do presente e da memória enquanto vivência do esquecimento, funcionando como suspensão crónica de um tempo ilusório no estado de auto-isolamento.
Não consigo precisar a duração desse período mas tenho ainda ideia de uma primeira fase de sensação do mundo através de um plástico, sufocada e distorcida, e uma segunda fase de percepção da realidade em centrifugação.



Cátia Mourão,

Embora na altura já soubesse que os processos de reajustamento dos sentidos com a consciência e desta com as emoções não encontram paralelo no tratamento de uma entorse ou fractura exposta, desconhecia por completo a falta de preparação e vontade da maioria dos profissionais de saúde física para lidar com doenças do foro psíquico. No momento em que o constatei, achei que a grande maioria dos enfermeiros não passava de bate-chapas e os médicos de aspirantes a mecânicos. Salvo raríssimas excepções, é com desinteresse e leviandade que destratam, ofendem, agridem, amarram e adormecem a condição humana de quem tem o infortúnio de lhes cair nas mãos em alturas de desconserto. Concluí que nem a possibilidade de reestruturação mental passava pelas ligaduras das urgências hospitalares, nem o conforto psicológico adviria da verbalidade ultrajante de quem desempenha trabalhos oficinais, por mais que a estes se dedique com inquestionável zelo. São ofícios outros que requerem outros preceitos. Confundi-los é como falar um dialecto numa tribo diferente, resultando em algo semelhante à prescrição de um medicamento para maleita diversa...

(...)

«(...) the ambitions are wake up, breathe, keep breathing the ambitions are wake up. breathe, keep breathing
you have driven these streets a thousand times and all they offer is their exhaustion
your nightmares have your name now
you exit the glitter storm, go home alone and embrace the violence instead
this city has claimed all your blood and memory this is cool and unusual punishment
you go for years without touching another
never think of the why you are so casual about brutality
doctor says "take this it'll settle you down" doctor says "take this it'll settle your system" doctor says "take this we'll settle the bill" doctor says "take this it'll settle the score"
the ambitions are wake up, breathe, keep breathing the ambitions are wake up, breathe, keep breathing. (...)
the sweet things don't stick around but the bullshit lasts forever.»

Nicole Blackman (Golden Palominos),
The Ambitions Are, in «Dead Inside» *



Cátia Mourão, Arcano XXII

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 5- Recaída
Partilhas

Não há dúvida nenhuma que a depressão é uma armadilha na qual a pessoa mesma se coloca. Há uma necessidade enorme de se ser aceite e agradar às pessoas porque ela própria se menospreza. Cria defesas, formando uma parede à sua volta para proteger-se, mas essa parede sufoca. Sente-se ferida e acha que as pessoas
só querem magoá-la - mesmo os familiares e pessoas próximas. Pode mesmo chegar ao ponto de esconder-se atrás de mentiras, timidez, complexo de inferioridade, complexo de superioridade, agressividade,etc.
Uma vez mais parabéns pela forma como te expressaste.

Partilhado por: Carlos Martins em fevereiro 17, 2005 05:17 PM

Só posso falar de saudades...
E também podia não falar, mas sou queixinhas.

Partilhado por: Gigante monstro horrendo AdamastoR em fevereiro 5, 2005 01:18 AM

Será que a depressão nos permite ficar realmente conscientes? Ou será que começam a surgir coisas, pensamentos na tua cabeça, que te perseguem, quer estejas a dormir quer estejas acordada? Às vezes penso se será que uma pessoa com depressão é realmente a mesma pessoa... Será que não é outra pessoa que pensa e age por ela? Será que nós somos mesmo nós quando estamos assim tão doentes, embora os outros não consigam ver a gravidade do nosso estado precário de saúde? Não tens medo de enlouquecer? Eu por vezes tenho um medo terrível, quase inconsciente, de que isso aconteça. E se acontece? E se um dia acordo e já não sou eu? Porque é que não consigo deixar de pensar tanto e permitir ao meu cérebro descansar um bocado? Porque será que não consigo abstrair-me dos meus pensamentos e ser um bocadinho livre?
A uma dada altura parece que tudo está mal, que todos te querem destruir, que não acreditam que realmente estás doente. Olham-te como se fosses mentirosa, como se usasses a depressão para te esconderes, para tudo o que fazes e não fazes… acusam-te de só não te pores boa porque não queres. Se tu quisesses e tivesses força de vontade…
Às vezes pergunto-me se sou eu a louca, ou se são eles? Será que não conseguem ver o que está para além dos seus olhos?!

Há alturas em que me sinto mesmo uma doida, fora de mim. Ralho e grito e chateio-me e não tenho paciência para as pessoas e volto a gritar, a ralhar. E depois penso porque é que trato assim os outros! E enfureço-me. Às vezes chego a sentir ódio. Ódio do mundo, ódio de mim, ódio da vida por me estar a fazer sofrer assim.

Nunca pensaste: porquê eu?! Eu penso constantemente nisso. Porque é que uns se passam da cabeça e outros não?!

[Um beijinho muito grande minha querida, que tudo te corra bem e vai dando sempre notícias.]

Partilhado por: Su em fevereiro 2, 2005 12:28 PM

Cat [...] anseio por novas leituras.

Partilhado por: Espectro #999 em fevereiro 1, 2005 06:46 PM

Não concordo plenamente mas, se o afirmas eu não digo que está errado....

Partilhado por: doce rebelde em janeiro 28, 2005 09:07 AM

agora que já posso comentar,...
digo só que não sei o que diga de novo... identifico-me, encontro-te,... venho matar saudades. força - estamos quase lá, o pior já passou!

Partilhado por: gata em janeiro 26, 2005 03:24 PM

Tens razão, Sombra, em relação ao que disseste.

Partilhado por: Concha em janeiro 24, 2005 01:07 PM

Is it my impression or are you equally bilingual?

Partilhado por: Marco em janeiro 22, 2005 03:55 PM

Fico fascinado sempre que leio este texto. Tento compreendê-lo mas é-me particularmente difícil prostrar em si mesmo. Acho que ando a escrever mal para caramba.

Partilhado por: Espectro #999 em janeiro 21, 2005 03:29 PM

Quero agradecer o que escreves aqui. Muito. Verdadeiro serviço público. Beijinhos. Vamos falando no msn ;).

Partilhado por: corrupto em janeiro 20, 2005 02:30 PM

Eu também venho em silêncio e penso em ti muitas vezes. Gostei muito desta Outra.

Partilhado por: rosa em janeiro 20, 2005 02:17 PM

Adorei a crónica. Impressionou-me a lucidez dos teus escritos "algures no limbo entre a matéria e o transcendente", assim como a definição de loucura. "A Outra" está muito expressiva. O efeito que se obtém ao passar com o cursor do rato por cima está genial.

Partilhado por: Joel CF em janeiro 17, 2005 05:29 PM

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