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fevereiro 23, 2005

Desenlace

Quando as feridas da alma começaram a sarar, deixando cicatrizes que apenas latejavam em memória na mudança das estações, troquei as urgências psiquiátricas pelas sessões de psicoterapia.



O primeiro raio x da dimensão imaterial emotiva acusou sedimentos e fracturas intemporais, calcificadas em desalinho, responsáveis pela imobilidade de algumas sensações e pela inoperância de determinadas atitudes. Em certos casos foi necessário reabrir feridas para reajustar o desajuste interior que teimava em manifestar-se exteriormente. Só assim ficava garantida a cura sem sequelas.
O exercício regressivo, a detecção dos pontos de ruptura no equilíbrio e as "cirurgias" para remoção do cancro que me foi minando a alma durante anos seguidos, facilitou grandemente o controlo da minha tendência para a obsessão compulsiva. Nesse sentido, passei a dissolver os motivos de ansiedade mais básicos, começando por resolver a descontrolada tendência para controlar as horas deixando de usar relógio.
Progressivamente liberta de restrições auto infligidas, fui-me permitindo ensaiar a tolerância pelo não perfeccionismo e descobri o frémito libertador do calão em alturas mais críticas, evitando assim a tensão causada pela inflexibilidade.
O tendencial alargamento dos espaços de serenidade foi fortemente incentivado pela vivência quotidiana com os meus três gatos. A calma contemplativa deles contagiou-me e a aversão que têm por ambientes conturbados levou-me a moderar as ocasionais erupções de humor para que não se afastassem de mim.
Quando senti que já muito poucas questões me atormentavam ou provocavam alterações na minha estabilidade emocional, parei a medicação. A decisão foi tomada em Outubro de 2004, uma época do ano considerada difícil e desaconselhável para o fazer mas entendi que já não iria retirar mais benefícios do tratamento químico. Tinha sido iniciada a última etapa do processo de cura da Depressão que dispensava o auxílio dos fármacos.
Algo ressentida fisicamente pela acção dos medicamentos, precisei de completar a reconstrução emocional com o fortalecimento dos alicerces físicos. Encontrei no Tai Chi o exercício que me pareceu melhor conjugar o equilíbrio de ambos através dos movimentos lentos, executados sem esforço, aliados à meditação. Uma das reflexões Chi que mais me marcaram no período imediato pós medicação, quando surgiram dúvidas sobre a capacidade de resistência à síndroma de privação, foi «Cultiva a autoconfiança porque sem ela a vida é como uma casa em ruínas».
Não tardou muito para que conseguisse também equilibrar certos excessos anteriores, pelo que converti a ortorexia nervosa num vegetarianismo moderado (lacto-ovo-vegetarianismo).
Consegui, igualmente, ganhar coragem para iniciar o Doutoramento.



Cátia Mourão, Chi-Ankh (Matisse, Anaïs e Ankh)

(...)

Ao fim de 7 anos de Depressão manifestada, 3 dos quais em fase profunda, finalmente atingi um nível de felicidade algo kitsch (penso ser inevitável) mas com suficiente encanto para rir a propósito de certos despropósitos… ou até para relevar certas leviandades como a acusação de que o depressivo se sente confortável com a situação de doente e prefere tomar medicação do que apelar à sua força de vontade para vencer as “pequenas contrariedades que todos temos”. Há 2 anos atrás eu reagia a estas considerações com explosões de cólera que não conseguia conter, mas hoje, mais estável que estou, entendo que possivelmente também as faria se não tivesse vivido uma Depressão. O conhecimento que a experiência me deu trouxe-me a consciência do dever de esclarecimento, demonstrando que a Depressão é um “cancro na alma” que, tal como os cancros no corpo, tem de ser diagnosticado a tempo (aos primeiros sinais de instabilidade emocional) e devidamente tratado – numa primeira fase com químicos prescritos pelo psiquiatra e depois com análise orientada pelo psicoterapeuta.

(...)

Um ano após ter iniciado o projecto Sombra no Silêncio, com 24 Crónicas de uma Depressão escritas no pretérito, termino-o com a 25ª Crónica redigida no tempo presente e com um conteúdo que, acredito, continuará futuro. Não apenas para mim, mas também para todos aqueles que sofreram ou sofrem ainda de Depressão.
Agora apercebo-me de que quando falta a auto-estima normalmente pensa-se em esconder, fugir, trocar de identidade ou transmutar para outra essência – algo fácil, cosmético, com resultados imediatos –, pois não se está ainda em condições de operar o reajuste interior e dar novamente forma ao magma informe e incandescente em que o ego se encontra. Quando chega a altura certa, o processo de viragem dá-se naturalmente, quase sem se dar por ele. Dá-se também a descoberta de que, afinal, não SOMOS errados mas apenas tivemos um período em que ESTIVEMOS menos certos... e conclui-se que, felizmente, o “cancro na alma” tem cura.

Faço um especial agradecimento a quem me acompanhou durante estas Crónicas,

partilhando palavras (por ordem de partilha):

Tatiana Peres (extinto Free your Mind)
Mogrom
Matilde
Carlos Martins
Gata (Paula)
João Norte (extinto Intro.Vertido)
Paulo
Catarina
Maria
#Anónimo#
Ana Costa
Margarida
Joel (extinto NeverLess)
Twilight (extinto The Bloglight Zone)
Gonçalo Trafaria
Corrupto
Zé Gato
AdamastoR
Poeta Noctívago
Espectro #999
Cláudia
Silsmaria
Claire Lunar
Su
João da Cal
Kurtz
Biquinha
Sandra
Concha
Rosa Pomar
Outra
Marco
Vilma

em silêncio (os identificados):

Nuno Peixoto Branco, ou D. Quixote
Kooka
brUno amaral (extinto O Admirador Secreto)
Outro
Luís Rijo (extinto Estátua)
Carrie e Borboleta, ou Carrie e Kinder
Jumbo (extinto Avioneta Malabarista)
Jorge
Rakel

ou na sombra (os não identificados de quem nunca cheguei a saber os nomes)...

Escrito por Cátia Mourão | Correspondente à Fase 6- Cura
Partilhas

Gosto muito deste projecto que, embora concluído, sem dúvida será sempre um ponto de visita com interesse.
Ao longo deste ano, quando tinha tempo, entrava e confirmava as suas novidades porque elas sempre me ajudavam a entender esta depressão que aqui tanto se fala. Sei que isto tudo vai passar. O que aconteceu foi uma fase da vida. Há sempre uma luz no fim do túnel, um mundo maravilhoso lá fora… Basta encontrar uma forma de voltar a sorrir e de voltar a ver a vida com expectativas boas. Como sempre, podes contar comigo para ajudar!!!

Partilhado por: Carlos Martins em abril 7, 2005 10:30 PM

Fico MUITTTOOO FELIZ por ti, e por quem te acompanhou durante todo este processo. Não será necessário estender-me no comentário porque, apesar das raras vezes que falámos, creio que ficou implicita uma simpatia e ternura (mesmo depois de "O Profeta" eheheh) entre nós. SEMPRE que precisares (de preferência nunca por razões de saúde/doença) cá estarei. BEIJOS MUITO GRANDES e um abraço apertadinho! ;)

Partilhado por: catarina em março 31, 2005 02:25 PM

há algum tempo que não vinha aqui. gostei muito de ler esta crónica. a maior parte das vezes, acompanhei-te em silêncio, ciosa das minhas próprias feridas. o que agora conseguiste é excelente. sorrio-te. :)*

Partilhado por: claire lunar em março 27, 2005 08:25 PM

Desejo-te uma vida muiiiiiiiiiiiittttttttoooo feliz, cheia de momentos kitsh! Este será sempre um blog de referência pelo seu conteúdo e forma. Aprendi muito aqui contigo.
Beijinhos e até sempre

Partilhado por: Twilight em março 15, 2005 07:20 PM

Sombra!
Obrigada pela visita e não podia gostar mais das tuas palavras.
Admiro-te muito e ao modo como superaste, partilhaste e recuperaste a tua vida!
Beijo e até...

Partilhado por: Concha em março 11, 2005 10:35 AM

A Concha deu-me as boas novas!
Fico sempre fascinada pela capacidade regenerativa e espírito de sobrevivência do ser humano. Somos mesmo fantásticos não somos?
Aguardamos as tuas visitas com os teus melhores sorrisos emocionais, ainda que a propósito de qualquer despropósito, mas agora sob um outro cognome, como Raio de Sol ou Phoenix! ;)
Sê Muito Feliz.
Beijinhos.

Partilhado por: Lua em março 10, 2005 03:53 PM

Apesar de ter o meu nome incluído na lista daqueles que dizes terem-te acompanhado ao longo deste último ano, não me sinto como tal, até porque quando conheci o teu blog, já estarias provavelmente a meio da travessia. No entanto, fico deveras agradecido.
Neste último relato reparo que falas em gatos e tai-chi. Conheço-os a ambos, sei do que falas, e concordo plenamente em tudo, sobre o que eles escreveste.
Apesar de teres finalizado este "projecto", estarás por acaso pensando em iniciar outro, este já com novos parâmetros didácticos?
Porque é realmente uma pena que a rede fique sem os teus rascunhos inteligentes e mordazes.
Um grande beijo.

Partilhado por: Espectro #999 em março 10, 2005 03:44 PM

Fico tão feliz por este blog ter acabado!
Uma partilha fantástica, muitas vezes assustadora, sinal da batalha que travaste e venceste!
Muitos parabéns!
Beijo do tamanho do mundo e desejos de lindas cores!

Partilhado por: Concha em março 10, 2005 03:34 PM

O que é o feito da Sr.ª Sombra?

Partilhado por: O Poeta Noctívago em fevereiro 26, 2005 07:24 PM

Assombrosa,

Já aqui escrevi que este teu testemunho ultrapassa largamente a classificação de blog.
Mas porque tem essa categoria formal, só posso considerá-lo o blog mais importante que conheço.
Claro que para isso, contribui também o genial sentido de humor que transparece até das palavras mais duras e a forma como elas estão escritas, sem lugares-comuns ou banalidades. E a frontalidade, a abertura, a sensibilidade que mostras.

Fico muito feliz por saber que sobreviveste e honrado por ter partilhado contigo a tua vivência e ter assistido à tua reconstrução.

Um brinde, aos momentos kitsh!

Partilhado por: Gigante monstro horrendo AdamastoR em fevereiro 26, 2005 03:37 PM

Estou muito FELIZ por terminares aquilo que foi o principio de um fim. Nasceste outra vez. Somente grandes pessoas o conseguem fazer. Quando algum dia te sentires triste, lembra-te de toda a coragem que tens. Se fosse outra pessoa, esconderia e esqueceria o que tinha passado, mas tu, em vez disso, escreveste e lembraste. É preciso uma grande coragem! És uma mulher com M maiúsculo e que eu, em particular, admiro muito! E mais, devias publicar o blog em livro para contar tudo. É importante e escreves magnificamente.

Partilhado por: Vilma em fevereiro 24, 2005 05:34 PM

=) que bom sinal!!! que bom não haver mais crónicas de depressão para escreveres aqui!!! parabéns pelo trabalho escrito e partilhado, e mais parabéns ainda pela evolução e conquista que conseguiste!!!

estou tão contente!!!
beijos!!

=)

Partilhado por: gata em fevereiro 24, 2005 03:26 PM

Não, não é o happy end com "hollywodescos" raios de sol por entre as nuvens; por outro lado, lá por ser a vigésima quinta crónica não vou recordar Triyan Koruga, a interessantíssima figura principal de A Vigésima Quinta Hora do católico romeno Virgil Gheorghiu, porque enquanto Koruga, na sua simplicidade, achava que se devia mecanizar o sistema já que o resultado era sempre o mesmo, o teu processo não foi mecânico, bem pelo contrário teve um desenrolar tão humano quanto se possa imaginar desde a desintegração até à reconstrução, tudo feito por ti, experimentado e vivido por ti.
Como dizes e muito bem, esta crónica é sim o elo actual que te liga ao futuro, para o qual partes com uma bagagem adquirida e devidamente acondicionada por ti sem ajuda de ninguém, embora tenhas tido muitos e por certo bons acompanhantes.
A imagem do círculo felino poderá ser a da roda da vida renovada, a do eterno retorno - não o retorno a tudo aquilo por que passaste mas sim o retorno à vida agora mais rica em conteúdo e em experiência.
Afinal, se ainda há tanta estrada para andar porquê parar?

Partilhado por: mogrom em fevereiro 24, 2005 02:20 PM

:)

Partilhado por: joel em fevereiro 23, 2005 04:30 PM

Este espaço atingiu o limite de comentários directos aos textos mas pode ler mais no
Livro de Partilhas