Este espaço surge com o desejo de partilhar sensações vividas durante uma Depressão.
Uma sombra projectada no silêncio é um depoimento pessoal sobre a vivência de uma Depressão, feito já numa etapa avançada de recuperação do elan vital e de reconstrução das estruturas basilares da personalidade; é uma tentativa de ajuda para quem sofre de Depressão e para quem sofre com a Depressão de alguém; é um incentivo para que todos os que se sentem «sombras projectadas no silêncio» reconstruam a sua forma e recuperem a voz, e um contributo para que os outros os compreendam um pouco melhor e os possam ajudar; é um espaço aberto à partilha de sensações, um convite ao diálogo, uma forma de quebrar o isolamento e a solidão de quem sofre na primeira pessoa ou de quem sofre por ela.
Há cerca de mês e meio revi-me noutra pessoa... Há cerca de mês e meio revisitei o meu passado...
No dia previsto atrasei-me um pouco e liguei-lhe a avisar. Do outro lado respondeu-me estremunhada, arrastando as palavras de maneira que mal se percebiam. Eram 17 horas e estivera a dormir desde as 18 do dia anterior. Disse que tinha a língua presa, que não conseguia aguentar a cabeça e que sentia uma dormência no corpo. Não conseguiria levantar-se para ir ter comigo.
Dez minutos mais tarde ligou-me de volta afirmando sentir-se melhor e pedindo que esperasse por ela.
Fui encontrá-la sentada nas escadas do passeio, curvada sobre si mesma, com as pernas estendidas e os braços molemente caídos. Chamei por ela e levantou-se cambaleante. Tinha o rosto macilento, os olhos baços, pisados, com olheiras profundas e acastanhadas. Era uma vaga imagem de si, como se a sua essência tivesse sido sugada por alguma estranha força e restasse apenas um despojo físico quase residual. Não comentei mas senti. Senti profundamente. Senti aquilo que penso terem sentido os outros quando, há 4 anos atrás, me avistavam, perguntando aos meus pais, em segredo, se eu estava doente por me verem tão esmaecida e esquálida... um farrapo humano... Agora entendia a expressão de repulsa, o sobrolho carregado, o olhar de esguelha, a desconfiança com que me presenteavam naquela época. Contive as lágrimas.
Sorri e abri-lhe os braços. Estreitei-a com força, na esperança de que o ânimo fosse contagioso ou passasse por osmose. Convidei-a a entrar e sentámo-nos. Não aceitou o chá ou as torradas com que costumávamos brindar nos nossos encontros.
Falámos durante longas horas. Sentia-se perdida, sem referências, estranhando-se e desconhecendo-se. Via-se alterada nas emoções e nos afectos, com uma hipersensibilidade que tocava a intolerância, tornando-a reactiva à menor palavra e provocando-lhe agressividade e ataques de choro convulsivo. Dizia-se acometida por uma ansiedade latente com razão indeterminada, prostrada por um cansaço crónico, alternando longos períodos de sono com frequentes insónias. Contou-me do desespero dos pais que não a reconheciam e sentiam a torturante impotência para curar uma doença invisível provocada por vírus indeterminado e com manifestações inesperadas. Confessou a tentação da desistência com a auto-estima degradada.
Pediu-me que lhe explicasse o que se passava, como se passava e como se ultrapassava.
Lamentei não saber fórmulas. Lamentei mesmo que não existissem fórmulas. Pude apenas partilhar as lembranças da fase mais aguda da minha depressão e fazer uma viagem às profundezas de mim. Não terminei naquele dia. Ainda hoje não terminei. Ainda agora desconheço quando irei terminar...