Procurei determinar a razão que me levou ao silêncio e me transformou numa sombra de mim.
Passaram dois anos.
A minha "jornada depressiva" terá começado aos 23. É difícil precisar pois não existiu um acontecimento por si só responsável pela minha queda no fundo do poço. No entanto, não me restam dúvidas de que o mais significativo marco no percurso da queda foi a morte do meu avô paterno. A morte ou a surpresa da morte… Foi inesperada. Nada a anunciava.
Era sábado. O último dia do primeiro mês do ano. O primeiro do meu percurso de invernia. O dia começou frio, aclarado por um sol anémico. Fui visitar as ruínas romanas de Tróia, em Setúbal. Detive-me nas cetariae transformadas em sepulturas paleocristãs no final do século V d.C. e recordei o sentido das palavras inscritas na lápide de uma menina em Roma: «Tu que vives e passas por mim, continua a tua caminhada. Aproveita o que cedo me foi tirado.»
Quando a visita terminou, o meu pai fez um telefonema. Desligou sem palavras, consternado. Trocou algumas sílabas com a minha mãe. Soltei um grito incrédulo. Apanhámos o barco de volta. Senti o vento cortar-me a cara durante toda a travessia do Tejo. Nunca o rio fora tão largo e as margens tão distantes!
Não esqueço a luz doentia do único candeeiro que iluminava a sala. Também não esqueço o cheiro pesado e bafiento de toda a casa. Nem o murmúrio distante de quem estava tão próximo. Menos ainda a descrição «… morreu de pé… caiu antes de alcançar a cadeira… desamparado… um fio de sangue escorreu pelo lábio depois do embate…»
Fui encontrá-lo já fardado de cerimónia. A última. Branco. A boca aberta. Parecia dormir. E eu cantava para dentro «(…) breathe your life and soul in me (…)»… Repeti durante todo a caminho até ao Alto de São João. Interrompi com um pranto quando o vi devorado pela vulva de chamas. Continuei depois durante toda a longa espera. Parei quando mo apresentaram na forma de cinzas. «Um metro e oitenta dentro de uma caçarola…» - disse a minha avó. Foi lançado num buraco aberto na terra.
Meses depois, passada a vital união, a família foi fraquejando. Um a um. Veio a minha vez…

Cátia Mourão, sem título
Os Cantos da minha boca deixaram de sorrir e transformaram-se em caleiras de lágrimas. Perdi o viço… Caíram-me as folhas…
«O parto das manhãs vai-se tornando cada vez mais penoso. Os dias são raquíticos, nebulosos, sem sol. Como é difícil encarar a luz branca, fria, metálica que entra pela janela e me rompe o orvalho dos olhos ao despertar! Corro a persiana e volto o rosto para o outro lado. Abandono-me à preguiça de um fechar de pálpebras e afundo-me na escuridão dos sonhos, perdendo-me no limbo que separa os sons do mundo das imagens que não controlo.
Levantar-me para quê? Fazer o quê? Tudo é cortante! O algodão das telas arranha-me os dedos… o barro devora-me as mãos… o lápis crava-me a pele como uma farpa…»
Mergulhei na melancolia saturnina. Fui lentamente largando interesses, experimentando desistências e escorregando para dentro de mim…