Ainda que nenhuma perda seja esquecida, há sensações fugazes de compensação que parecem preencher o vazio e nos fazem emergir da profunda letargia do luto.
Conheci o cheiro da terra, do mato nas noites de Estio.
Vi a chama das velas dançando no quarto e as primeiras cores da madrugada.
Experimentei o sabor das cerejas e dos figos maduros.
Ouvi o som de um violino na casa em frente.
Senti a frescura do orvalho pela manhã e o calor desvanecendo no crepúsculo.
Continuei a voar no alcance da luz. Senti que batia no vidro de uma lâmpada. Insisti obsessivamente.
Ao fim de dois anos a lâmpada apagou-se. De asas queimadas, caí na escuridão.
Lembro o cheiro do sangue.
Lembro a sombra da noite.
Lembro o sal das lágrimas e a acidez do vómito.
Lembro o grito na escuridão.
Lembro a dor do vidro na carne.
[Nigredo]
A ansiedade, os reveses, a frustração, revolviam-me as entranhas. Sentia uma imensa bola de fogo devorar-me por dentro.
«Pulsa,
fermenta,
febril,
revira-me num enjoo;
Dou-lhe a mão e trepa,
quente,
ácido,
roendo a carne,
saindo em espasmos,
libertando o corpo esquálido,
prostrado.
Os nervos à flor da pele,
o peito ofegante,
a garganta
lateja
dormente.
A espera no vazio imenso
desespera
e mata lentamente,
escorre pelos poros
inundando a angústia ardente,
desistente.»
Encontrei alguma sintonia em líricas de conteúdos perturbantes. Ouvi-as ad nauseam. Cultuei-as, embora na época não tivesse chegado a saber a autoria. A que mais me marcou foi, sem dúvida, Holy, de Nicole Blackman, integrada no álbum «Dead Inside», dos Golden Palominos:*
«I eat only sleep and air
and everyone thinks I'm dumb
but I'm smart because I've figured it out
I am slimmer than you are
and I am burning my skin off little by little
until I reach bone and self
until I get to where I am essential
until I get to where I am
Food doesn't tempt me anymore
because I am so full of energy and sense.
I can even pass by water now
because I am living off the parts of me
that I don't need anymore.
I could feel the slow drips of pain before,
swirling inside where my lungs
should have been.
Now I'm clean inside.
I threw out hundreds of things that
I didn't need anymore.
All my dresses and bras
stupid things like jeans and socks.
Most days I float through the house naked
so I can see myself in the mirrors.
I have hundreds of them everywhere
and they talk back to me all the time.
They keep me true and pure.
they make sure I'm still there.
When I knew what I had to do
I took all my notebooks, all my manuscripts
and ate them page by page
so I could take my words with me.
I can finally control my life and even death
and I will die slowly like steam escaping from a pipe.
This is my greatest performance
and all of the actresses who won my parts will say
how wonderful to let yourself go that mad,
how wonderful to go on this kind of journey
and not care if you come back to tell the story.
I scratch words on the walls now
so people will visit this museum and know
how someone like me ends up like this
(they'll say there is art in here somewhere).
Everything that comes out of me is sacred
every tear, every cough, every piss.
Everything that comes off of me is sacred
every fingernail, every eyelash, every hair.
Starvation is sacred and I
scratch my bones against the windows at night.
I light candles and feel myself evaporate.
This body is a little church, a little temple.
You can't see me now because I've gone inside.
My family doesn't call anymore.
My friends don't call anymore.
They can't hurt me anymore.
You can't hurt me anymore.
Only I can.
And that's okay.
I don't need them anymore.
I can live off of me.
I speak to me.
I dance with me.
I eat me.
When they find me, I'll have a little smile on my face
and they'll wrap me in a white cloth
and lay me in the ground
and say they don't understand.
But I do.
I don't hurt anymore.
I'm not lonely anymore.
I'm not sad, I'm not pretty anymore.
I made it through.
I feel so holy and clean when I stretch
out on the floor and sing.
Sometimes God comes in for a minute
and says I'm doing fine,
I'm almost there.
Every day I get a little closer to vanishing.
Some days I can't stand up because
the room moves under my feet
and I smile because I'm almost there,
I'm almost an angel.
One day when I am thin enough
I'll go outside
fluttering my hands so I can fly
and I will be so slight that I
will pass through all of you
silently like wind»
* [agradeço ao #Anónimo# pela referência]
![ortho[rexia]](http://sombranosilencio.no.sapo.pt/ortho.jpg)
Cátia Mourão, Ortho
Quando se sente tudo, quando a sensibilidade dá lugar à susceptibilidade, quando tudo perturba ao ponto limite da obsessão...
Não era suposto ter corrido assim. Estava convicta de ter exagerado na dose. Haveria de conseguir acertar e sentir o Nirvana de que falavam. Voltei a tentar mais duas vezes e consegui chegar a gostar do efeito. O pior eram os momentos que antecediam e sucediam a parte boa - o sacrifício de engolir e a ressaca do dia seguinte. Ainda assim valia a pena (?) Mas não foi assim por muito tempo, pois cedo veio o dia em que cuspi a única gota que me tocou na língua. Nunca mais, desde então.

Cátia Mourão, Ebriez
Passei a viver nos limites...

Cátia Mourão, O Grito e O Enforcado
A existência tornava-se insuportável e sem sentido...
«Cortei a carne e arranquei o desespero das veias, deixando-o escorrer pelas mãos
lentamente
tão lentamente que ainda mo apanharam
coseram-no com um espartilho de linhas para que não voltasse a escapar
e adormeceram-me para que não voltasse a sentir o tentador apelo da fuga»

Cátia Mourão, Lâmpada

Cátia Mourão, Corte

Cátia Mourão, Ligada
...
Mas voltei a escutar a memória das palavras de uma outra morte iniciática:
«(...) Às onze e meia da noite
a Primavera passou-se
para o lado do Outono.
E uma Maria qualquer
nas alamedas do sono
cansada de ser mulher
às onze e meia matou-se.
Em ponto. São onze e meia.
Esta noite os redimidos
hão-de fazer por esquecer.
Bem comidos e bebidos
não tardam a adormecer.
E um frasco de comprimidos
na mesa de cabeceira
vai ajudar os sentidos
a cozer a bebedeira.
Às onde e meia da noite. (...)»
Joaquim Pessoa, excerto do poema «Balada das Onze e Meia»,
in Português Suave, Litexa Editora, Lisboa, 1979.
Encontrava-me outra vez prisioneira.
«Encontro-me outra vez prisioneira desta casa. Agora também prisioneira deste corpo, prostrada, entorpecida nesta cama.
Não posso fazer nada.
Também não quero fazer nada.
Já não quero fazer nada.
Fizeram-me um casulo de lençóis. Estou nele há cerca de um mês como uma crisálida, dormente, sentindo o corpo transformar-se noutro que não é o meu, que não é aquele pelo qual tanto me privei...
Alimentam-me de quando em quando e voltam a adormecer-me. Ao longe oiço murmúrios. Não percebo o que dizem.
Talvez seja melhor assim. Não quero mesmo estar acordada ou voltar a sentir seja o que for; não quero tão pouco abrir os olhos e rever este papel de parede cor-de-rosa às florinhas, forjando a realidade. Antes tivesse grafitis! Também não quero constatar que me confiscaram tesouras, x-actos, espátulas, frascos; não quero olhar para a porta e vê-la entreaberta, sabê-la sem chave...
NÃO QUERO NADA! - a não ser que me reforcem a dose e me adormeçam DE VEZ!»

Cátia Mourão, Crisálida
Dentro de um casulo, no isolamento silencioso desse meio morno e húmido, a crisálida largava de si uma fina película de lembranças.
«Nunca te escrevi...
Falo de cartas como todos os amantes escrevem e não de fortuitos postais testemunhando a presença longínqua num qualquer país...
Porquê?
Talvez por temer deixar marcas de intimidade que outros pudessem devassar...
Sempre esperei que o meu segredo mais precioso fosse apenas conhecido por ti,
apenas partilhado com
o vento,
a chuva,
as sementeiras
...
Escrevo-te agora,
sem que o saibas.
Escrevo-te agora
para que fique registado.
[e já sem medo que os tais outros leiam, saibam, pensem]
Pena é que esta não seja uma carta
arrebatada,
apaixonada,
embriagada!
Seria mais belo,
menos decadente,
menos inútil...
Mas é agora que preciso de escrever,
talvez porque agora já não te possa falar,
talvez porque agora já não valha a pena falar-te,
talvez porque agora as palavras tenham uma sonoridade coada pelo tempo,
talvez porque agora já nem tenha com quem falar sobre ti,
talvez porque agora só o papel me oiça e me aceite (ainda?).»
Soltas as películas e as palavras, não tardaria para que a crisálida iniciasse o processo de transformação.