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abril 20, 2004

A queda

Ainda que nenhuma perda seja esquecida, há sensações fugazes de compensação que parecem preencher o vazio e nos fazem emergir da profunda letargia do luto.



Aconteceu assim quando, de modo inesperado, um elemento vagamente familiar irrompeu pelo meu quotidiano, enchendo-o de aparente leveza. Com um sorriso que irradiava luz, tornou-se magnético e viciante.
Prematuramente saí do casulo e estreei as asas em volta dessa luz com um projecto de liberdade.
Ensaiei os sentidos.

Conheci o cheiro da terra, do mato nas noites de Estio.
Vi a chama das velas dançando no quarto e as primeiras cores da madrugada.
Experimentei o sabor das cerejas e dos figos maduros.
Ouvi o som de um violino na casa em frente.
Senti a frescura do orvalho pela manhã e o calor desvanecendo no crepúsculo.

Continuei a voar no alcance da luz. Senti que batia no vidro de uma lâmpada. Insisti obsessivamente.
Ao fim de dois anos a lâmpada apagou-se. De asas queimadas, caí na escuridão.

Lembro o cheiro do sangue.
Lembro a sombra da noite.
Lembro o sal das lágrimas e a acidez do vómito.
Lembro o grito na escuridão.
Lembro a dor do vidro na carne.

[Nigredo]

Cátia Mourão

| Partilhas (5) |

abril 22, 2004

O vómito

A ansiedade, os reveses, a frustração, revolviam-me as entranhas. Sentia uma imensa bola de fogo devorar-me por dentro.



O estômago parecia estar no centro de mim, no núcleo dos meus nervos. Passou a ser o fiel da minha balança... um fiel desafinado numa balança com medidas oscilantes. Tão depressa ficava cheia como vazia. Ou ingeria desalmadamente, ou jejuava. Deixei de aguentar o menor elemento no estômago, aprendi a seleccionar, a expurgar e a "purgar-me".
Escrevi então, em idos de 1999:

«Pulsa,
fermenta,
febril,
revira-me num enjoo;
Dou-lhe a mão e trepa,
quente,
ácido,
roendo a carne,
saindo em espasmos,
libertando o corpo esquálido,
prostrado.

Os nervos à flor da pele,
o peito ofegante,
a garganta
lateja
dormente.
A espera no vazio imenso
desespera
e mata lentamente,
escorre pelos poros
inundando a angústia ardente,
desistente.»

Encontrei alguma sintonia em líricas de conteúdos perturbantes. Ouvi-as ad nauseam. Cultuei-as, embora na época não tivesse chegado a saber a autoria. A que mais me marcou foi, sem dúvida, Holy, de Nicole Blackman, integrada no álbum «Dead Inside», dos Golden Palominos:*


«I eat only sleep and air
and everyone thinks I'm dumb
but I'm smart because I've figured it out

I am slimmer than you are
and I am burning my skin off little by little
until I reach bone and self
until I get to where I am essential
until I get to where I am

Food doesn't tempt me anymore
because I am so full of energy and sense.
I can even pass by water now
because I am living off the parts of me
that I don't need anymore.

I could feel the slow drips of pain before,
swirling inside where my lungs
should have been.
Now I'm clean inside.

I threw out hundreds of things that
I didn't need anymore.
All my dresses and bras
stupid things like jeans and socks.
Most days I float through the house naked
so I can see myself in the mirrors.
I have hundreds of them everywhere
and they talk back to me all the time.
They keep me true and pure.
they make sure I'm still there.

When I knew what I had to do
I took all my notebooks, all my manuscripts
and ate them page by page
so I could take my words with me.

I can finally control my life and even death
and I will die slowly like steam escaping from a pipe.

This is my greatest performance
and all of the actresses who won my parts will say
how wonderful to let yourself go that mad,
how wonderful to go on this kind of journey
and not care if you come back to tell the story.

I scratch words on the walls now
so people will visit this museum and know
how someone like me ends up like this
(they'll say there is art in here somewhere).

Everything that comes out of me is sacred
every tear, every cough, every piss.
Everything that comes off of me is sacred
every fingernail, every eyelash, every hair.

Starvation is sacred and I
scratch my bones against the windows at night.
I light candles and feel myself evaporate.
This body is a little church, a little temple.
You can't see me now because I've gone inside.

My family doesn't call anymore.
My friends don't call anymore.
They can't hurt me anymore.
You can't hurt me anymore.
Only I can.

And that's okay.
I don't need them anymore.
I can live off of me.
I speak to me.
I dance with me.
I eat me.

When they find me, I'll have a little smile on my face
and they'll wrap me in a white cloth
and lay me in the ground
and say they don't understand.
But I do.
I don't hurt anymore.
I'm not lonely anymore.
I'm not sad, I'm not pretty anymore.
I made it through.

I feel so holy and clean when I stretch
out on the floor and sing.
Sometimes God comes in for a minute
and says I'm doing fine,
I'm almost there.

Every day I get a little closer to vanishing.
Some days I can't stand up because
the room moves under my feet
and I smile because I'm almost there,
I'm almost an angel.

One day when I am thin enough
I'll go outside
fluttering my hands so I can fly
and I will be so slight that I
will pass through all of you
silently like wind»

* [agradeço ao #Anónimo# pela referência]


ortho[rexia]

Cátia Mourão,

Cátia Mourão

| Partilhas (7) |

abril 23, 2004

Ebriez

Quando se sente tudo, quando a sensibilidade dá lugar à susceptibilidade, quando tudo perturba ao ponto limite da obsessão...



Foi assim que me senti. Foi a esse estado que cheguei. Foi por isso que uma vez me precipitei na primeira substância que me atenuasse as sensações e que estivesse ao meu alcance sem o menor esforço mas que, no entanto, tivesse algo de mágico, poético, quase alquímico.
Pouco tempo antes havia adquirido para a minha colecção de livros ilustrados de poesia, O Vinho e as Rosas, uma antologia de poemas que brindam ao vinho, desde a Antiguidade até aos nossos dias, atravessando civilizações, percorrendo a Terra de Nascente a Poente.
Inspirei-me. Escolhi criteriosamente o líquido que me conduziria a um estado de transe onde tudo seria relativizado, tornando-se distante, tão distante que pareceria passado... ultrapassado... daria até para sorrir com alguma complacência quando me aflorasse à lembrança...
Não era fácil. Havia tanto por onde escolher. Olhei para cada vidro e todos pareciam guardar um segredo diferente, extremamente apetecível, tentador... translúcido, mate, opaco, incolor, tinto, rosé, âmbar, verde, sépia, uma paleta veneziana diante do meu olhar ávido e da minha indecisão constante.
Abri um por um e fui sentindo desilusão. Lembro de me perguntar como poderia alguém tragar semelhante borrasca e ainda tecer-lhe louvores, cantá-la em verso, apelidá-la de "néctar dos deuses"! Seriam diferentes. Não duvido. Haveria quem pudesse distingui-los, mas para mim havia um odor comum, penetrante, etílico, quase corrosivo que me arrepiava e impedia de apreciar os aromas da terra, da casta, do sol, do ar, da fermentação... Definitivamente desgostava-me.
Mas tinha ido visitar o "santuário de Baco" com uma missão. Que importava se conseguia ou não apreciar? Não tinha sido exactamente a minha crescente incapacidade de apreciar fosse o que fosse que me havia levado àquela procura? Pois bem. Decidi emborcar o primeiro que agarrasse, fechados que estavam os meus olhos de tanto me agoniar. Tive de suster a respiração e fazer escorregar a custo dezenas de graus pela garganta. Ardia-me tudo. Ainda cuspi um naco de rolha que se desfizera graças ao mau jeito para sacá-la. Senti o corpo estremecer e um sabor a sótão abandonado na boca. Mirei a garrafa e tresli. Tentei focar e pareceu-me distinguir Johnny-qualquer-coisa no desalinho das letras. Devo ter proferido um chorrilho de impropérios, insultando o tal Johnny.
Desci as escadas para enfiar o Johnny no lixo. Senti os degraus ondularem debaixo dos pés. Galguei o último e deslizei no chão da cozinha. Achei uma certa graça. Continuei, de gatas, agora no intuito de subir as escadas para voltar ao quarto. Tarefa homérica que terá demorado cerca de 10 minutos, à razão de 1/2 por cada degrau. Consegui trepar a cama e adormeci de bruços.
Não sei quanto tempo estive a destilar, mas sei que acordei de rompante com um solavanco no estômago. Nem tive tempo de alcançar a casa-de-banho. Precisava de me largar novamente às escadas, desta vez para arrastar uma colcha que precisava de urgente lavagem. Não me lembro de que programa escolhi mas sei que me esqueci do amaciador, a avaliar pelo posterior comentário da minha mãe sobre a aspereza da dita. Voltei a adormecer num qualquer banco da cozinha até que o telefonema da minha avó me alertou para o facto de terem passado duas horas da combinada para jantar.
Á pressa, tirei a colcha da máquina e estendi-a, tentando apanhar todas as molas que caíam como tordos à minha volta. Voltei a trepar as escadas para tomar um duche rápido, tão rápido que nem deu tempo para me lembrar de tirar as calças antes. Adormeci uma vez mais, desta debaixo do chuveiro. Novamente o telefone e a avó aos gritos. Gritos não, por favor!
Meti-me a caminho, muito tonta, e juro ter visto a duplicar! Nunca antes acreditara que fosse possível. Mas é. E tive de ver logo dois cães correndo para mim! Pareceu-me ouvir ao fundo «Não se preocupe que ele só quer cheirá-la!». Logo a mim que tinha um bafo sórdido! Afastou-se (afastaram-se, juraria!) e prossegui trocando os passos.
À porta da minha avó ainda tive a presença de espírito de meter uma pastilha à boca "para disfarçar". Não tinha fome. Sentia-me enjoada até à mais ínfima molécula. Não comi. Em compensação, passei toda a santa noite a revirar-me, deitando de mim líquidos e cores que seguramente não tinha ingerido.

Não era suposto ter corrido assim. Estava convicta de ter exagerado na dose. Haveria de conseguir acertar e sentir o Nirvana de que falavam. Voltei a tentar mais duas vezes e consegui chegar a gostar do efeito. O pior eram os momentos que antecediam e sucediam a parte boa - o sacrifício de engolir e a ressaca do dia seguinte. Ainda assim valia a pena (?) Mas não foi assim por muito tempo, pois cedo veio o dia em que cuspi a única gota que me tocou na língua. Nunca mais, desde então.


Ebriez

Cátia Mourão, Ebriez

Cátia Mourão

| Partilhas (3) |

abril 26, 2004

O Grito Enforcado

Passei a viver nos limites...



O meu corpo parecia ter sofrido um choque de alta voltagem. Lançava-me ao chão, torcia-me, sentia os músculos assaltados por cãibras e espasmos, gritava, gritava, gritava, gritava, gritava, GRITAVA!
Gritei para que me internassem. Terá sido um grito surdo, sufocado, enforcado, porque não me atenderam.
Já que pela voz não me ouviam, passei a gritar com as mãos, desenhando e escrevendo.

O Grito e O Enforcado

Cátia Mourão, O Grito e O Enforcado

Cátia Mourão

| Partilhas (4) |

abril 27, 2004

Último acto

A existência tornava-se insuportável e sem sentido...



Via apenas um único fim para aquela peça dramática onde me sentia a única personagem que restava no palco. Aliás, todo o teatro estava vazio e permanecia na penumbra desde que a lâmpada se apagara e eu embatera nela, precipitando-me no chão entre os estilhaços. Decidi que sobre mim cairia o pano e que a noite poderia tomar conta do espaço.
Seria o ...
Escrevi-o em Junho de 2000:

«Cortei a carne e arranquei o desespero das veias, deixando-o escorrer pelas mãos
lentamente
tão lentamente que ainda mo apanharam
coseram-no com um espartilho de linhas para que não voltasse a escapar
e adormeceram-me para que não voltasse a sentir o tentador apelo da fuga»

Lâmpada

Cátia Mourão,


Corte

Cátia Mourão,


Ligada

Cátia Mourão,

...

Mas voltei a escutar a memória das palavras de uma outra morte iniciática:

«(...) Às onze e meia da noite
a Primavera passou-se
para o lado do Outono.
E uma Maria qualquer
nas alamedas do sono
cansada de ser mulher
às onze e meia matou-se.

Em ponto. São onze e meia.

Esta noite os redimidos
hão-de fazer por esquecer.

Bem comidos e bebidos
não tardam a adormecer.

E um frasco de comprimidos
na mesa de cabeceira
vai ajudar os sentidos
a cozer a bebedeira.

Às onde e meia da noite. (...)»

Joaquim Pessoa, excerto do poema «Balada das Onze e Meia»,
in Português Suave, Litexa Editora, Lisboa, 1979.

Cátia Mourão

| Partilhas (4) |

abril 30, 2004

Crisálida

Encontrava-me outra vez prisioneira.



Escrevi em Julho de 2000:

«Encontro-me outra vez prisioneira desta casa. Agora também prisioneira deste corpo, prostrada, entorpecida nesta cama.
Não posso fazer nada.
Também não quero fazer nada.
Já não quero fazer nada.

Fizeram-me um casulo de lençóis. Estou nele há cerca de um mês como uma crisálida, dormente, sentindo o corpo transformar-se noutro que não é o meu, que não é aquele pelo qual tanto me privei...
Alimentam-me de quando em quando e voltam a adormecer-me. Ao longe oiço murmúrios. Não percebo o que dizem.
Talvez seja melhor assim. Não quero mesmo estar acordada ou voltar a sentir seja o que for; não quero tão pouco abrir os olhos e rever este papel de parede cor-de-rosa às florinhas, forjando a realidade. Antes tivesse grafitis! Também não quero constatar que me confiscaram tesouras, x-actos, espátulas, frascos; não quero olhar para a porta e vê-la entreaberta, sabê-la sem chave...

NÃO QUERO NADA! - a não ser que me reforcem a dose e me adormeçam DE VEZ!»

Crisálida

Cátia Mourão,

Cátia Mourão

| Partilhas (4) |

maio 04, 2004

A Carta

Dentro de um casulo, no isolamento silencioso desse meio morno e húmido, a crisálida largava de si uma fina película de lembranças.


Guardei uma película solta em Agosto de 2000:

«Nunca te escrevi...
Falo de cartas como todos os amantes escrevem e não de fortuitos postais testemunhando a presença longínqua num qualquer país...
Porquê?
Talvez por temer deixar marcas de intimidade que outros pudessem devassar...
Sempre esperei que o meu segredo mais precioso fosse apenas conhecido por ti,
apenas partilhado com
o vento,
a chuva,
as sementeiras
...

Escrevo-te agora,
sem que o saibas.

Escrevo-te agora
para que fique registado.
[e já sem medo que os tais outros leiam, saibam, pensem]

Pena é que esta não seja uma carta
arrebatada,
apaixonada,
embriagada!
Seria mais belo,
menos decadente,
menos inútil...
Mas é agora que preciso de escrever,
talvez porque agora já não te possa falar,
talvez porque agora já não valha a pena falar-te,
talvez porque agora as palavras tenham uma sonoridade coada pelo tempo,
talvez porque agora já nem tenha com quem falar sobre ti,
talvez porque agora só o papel me oiça e me aceite (ainda?).»


Soltas as películas e as palavras, não tardaria para que a crisálida iniciasse o processo de transformação.

Cátia Mourão

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