O tempo de incubação chegava ao fim. Era forçoso que chegasse.
Vagueava na constância do desequilíbrio, experimentando fenómenos de desrealização e desmaterialização, ora flutuando, deslizando ou articulando movimentos entorpecidos, coagulados, primeiro sem rumo definido, depois com forjados propósitos... Tornava-se fundamental reconstruir referências, normas e, principalmente, hábitos. Percebi que a capacidade de decisão era o fio condutor entre as duas dimensões. Decidi então que arranjaria um emprego para lançar uma âncora na realidade através da projecção exterior de uma obrigatoriedade de cumprimento da rotina de hábitos... o primeiro passo para quebrar a inércia e o isolamento.
Diariamente repetia o mesmo percurso, as mesmas linhas condutoras do lancil do passeio, as mesmas palavras, os mesmos rostos, as mesmas teclas, os mesmos movimentos, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre com a mesma música de fundo, colada nos ouvidos, obsessivamente repetindo acordes, letras, ritmos, cadências que pautavam uma existência desarticulada e ainda questionada, presa por finas terminações nervosas em desalinho.
Lentamente começava a atrever uma fuga ao tom, a arriscar uma nota acima da escala, um passo fora do lancil, uma palavra outra a outrem que me interpelava na rotina.
Lembro também a vulnerabilidade ao som, ao toque, ao cheiro. Recordo um chamado em jeito de deleite, um olhar, um gesto de convite, um abraço forte, um beijo, um corpo a latejar, uma pulsação acelerada, uma envolvência - travada a tempo pela razão que tornara a desabrochar em mim sem que me tivesse dado conta...
Outros vieram assim, respondendo talvez a um secreto apelo dos sentidos que se regeneravam na dimensão da realidade onde fazia visitas furtivas com maior frequência. Sentia, talvez, uma estranha necessidade de reviver experiências sensoriais, de revisitar trechos de coisas e pessoas, de reinventariar ficheiros de memórias há muito adormecidos no silêncio da espera pelo meu retorno. Recomeçara a desfazer e reatar nós, laços, sensações e sentimentos. Recomeçara também a pintar.
Relançada na objectividade do real, confrontava a memória do ser passado com a condição do ser presente e constatava a transformação sofrida no desacordo entre as referências arquivadas na memória e as apreensões do momento.

Cátia Mourão, Auto-Retrato no Masculino

Cátia Mourão, Simbiose Transsexual
Sentada na cadeira de um barbeiro de bairro suburbano, pedi que me cortassem o cabelo do lado esquerdo, mantendo o comprimento do lado oposto.
- Desculpa mas não percebo como queres - respondeu-me o barbeiro.
- Corta-o todo na metade esquerda da cabeça e não mexas na direita - disse-lhe.
- Como se tivesses dois cortes diferentes? À homem no lado esquerdo e à mulher no lado direito?
- Sim. Isso!
- E como faço atrás? Como pretendes que conjugue a diferença?
- Sei lá! Deixa que se veja o contraste.
- Vai ficar completamente assimétrico!
- É assim mesmo que me sinto por dentro... assimétrica... fico também assimétrica por fora!
Molhou-me o cabelo e começou a cortá-lo com uma lâmina de barbear. Concentrei-me no som do corte raspado, rápido, rente e vi as madeixas caírem sobre o meu colo e no chão.

Cátia Mourão, Auto-Retrato com cabelo assimétrico
...
Era eu.
Seria eu?
Quem?
Qual?
Era.
...
Foi sobre a assimetria das antíteses que fiz algumas «Reflexões» e, com elas, voltei a "partilhar-me" com os Outros.
...
Na Agenda Cultural vinha anunciado:
Cátia Mourão
Exposição de Pintura e Desenho
Reflexões
18 a 31 de Dezembro - 2000
Átrio da Delegação do Instituto Português da Juventude
«Reflexões é uma viagem ao íntimo da pintora, um exercício de introspecção e a materialização na pintura e no desenho de um microcosmos autobiográfico que testemunha um longo período de conturbações interiores, marcado por um sentimento de angústia latente.»
...

Cátia Mourão, A Partilha
...
Hoje tenho a sensação de que o termo "partilha" não é o mais adequado para descrever a forma como me apresentei e representei no evento. A excêntrica assimetria do corte de cabelo, o excessivo brilho do gloss com que carreguei o rosto, a evidência da magreza no aperto da roupa... as telas literalmente expostas contra um muro de placards, ordeiramente sequenciadas como se prontas estivessem a serem baleadas de rajada mas sem vacilarem - pelo contrário, mantendo a firmeza de uma causa.
Lembro claramente as expressões de quem foi à inauguração. Era angústia que viam e angústia que sentiam e mostravam.
Agora tenho a certeza de que não me partilhei com ninguém... Na verdade violentei todos quantos me viram e reviram, sem contudo me reconhecerem. Esforçaram-se por transmitir palavras de agrado mas o semblante traía-os. Alguns chegaram mesmo a escrever:
«Gostei, sobretudo porque me fica a esperança de que, depois da escuridão profunda onde mergulhaste, venha a surgir a luz de novo na tua vida.»
(Maria Hélder Valério)
«(...) é uma exaltação do lado sobrevivente do que em ti cria, pois se o criador dentro de ti é inflexível e determinado pela obra, o ser humano que o suporta é frágil como todos os mortais! Hoje não apelo ao criador, esse monstro obstinado, mas à criatura que sobrevive a tudo isso.»
(Domingos Miguel Soares)
«Para mim tu és e serás sempre a eterna fénix renascida das cinzas para um novo dia, para um renascer não como artista - porque essa está bem viva - mas como ser humano frágil e belo que és. Aguardarei o tempo que for preciso por ti, minha amiga. Aguardarei ansiosa... Tens de resgatar o teu direito à VIDA... no mais profundo dos mares do teu ser.»
(Madalena Bobone)
«Quando deres de caras com a morte, faz-me um favor: dá-lhe um par de estalos da minha parte e diz-lhe que ainda não dançaste o suficiente!»
(Pedro Almeida Gonçalves)
«Esta tua exposição intitulada Reflexões é, sem dúvida, uma mensagem desnudada do teu ser, sem as roupas da aparência, sofrida e interiorizada. Mas será que a podemos intitular de libertadora? Penso que não. Retratas nela os próprios dualismos, a dor e sementes de um passado que pode estar longínquo ou de um passado ainda presente. Libertação é construir caminhos de futuro, sem réstias de passado, onde o teu ser se exprima na simbiose perfeita da tua forte criatividade interna com o advento de mundos sem dor e sofrimento. (...) Uma simples Reflexão de um pintor que gosta de ti e está ciente do teu real valor. Continua com essa força.»
(António Sem)
A violenta imposição das «Reflexões» contrastou com a efectiva partilha dos comentários e, ao invés de me levar a repensar as formas de interacção com o Outro, fez-me enquistar a agressividade...

Cátia Mourão, O Abraço
A minha luz nasceu a 3 de Março de 2001 no quintal de uma velha casa em Alcântara.

Cátia Mourão, Luz
Fechado ou aberto; confinado ou liberto; medido ou desmesurado; dentro ou fora; ordenado ou ao acaso; íntegro ou em ruína; criado ou existente; obscuro ou luminoso; silencioso ou sonoro; pesado ou leve; habitado ou vazio; identificado ou desconhecido; [feito] nosso ou de outrem; onde nos encontramos ou perdemos...
O segundo espaço não tem memórias, é muito amplo, muito claro, muito calmo, muito próximo de tudo e para ele levei o Abraço e a Luz. Os álbuns de fotografias e os quadros ficaram no primeiro espaço. Este é reservado a uma nova história.
No novo Espaço vislumbrei os primeiros vultos da paz interior. Nele concluí a tese de Mestrado e iniciei uma nova fase na pintura.
...
Uma vez mais, na Agenda Cultural, vinha anunciada uma exposição:
Cátia Mourão
Exposição de Pintura
Vislumbres
16 a 28 de Outubro - 2002
Átrio da Delegação do Instituto Português da Juventude
«Vislumbres reúne uma colecção de obras marcadas pela conjugação de materiais e técnicas que proporcionam diálogos de texturas e combinam pintura, desenho e colagem. A diluição ou emergência de formas diáfanas em fundos claros e luminosos confere às representações um acentuado grau de imaterialidade, situando-as num limbo nebuloso que traduz sensações de desrealização.»
...

Cátia Mourão, Revelação I
...
Nunca antes havia tocado a claridade e agora ela dominava as superfícies como a neblina das manhãs, simultaneamente revelando e encobrindo formas e sentidos, desvanecendo cores e sons. A letargia e o silêncio habitavam cada tela, criando registos de suspensão e intemporalidade, desmaterializando a matéria tangível para transformá-la em oniromorfoses.
Quase todas as telas utilizadas sofreram um processo de catarse. Tinham antes sido domínio da Depressão profunda e constituíram a imagem da exposição «Reflexões». Repintei-as; revesti-as de luz com velaturas brancas que funcionavam como cortinas para o passado, deixando vislumbrar trechos das pinturas anteriores. Quis ultrapassar mas não esquecer. Eram referências minhas.
...
Escreveram-me algumas impressões sobre os «Vislumbres»:
«A mancha etérea só aparentemente encobre a expressividade.»
(José António Proença)
«Vislumbrei a paz e harmonia que procuravas e que agora ocupa o lugar dos traços pesados da tua obra de outrora.»
(Ana Remédios Salvado)
«Neste teu vislumbre, essa pequena janela da tua alma que ofereces a todos, vi uma serenidade que não via há muito - se é que alguma vez a vi em ti... -, uma viagem de procura e descoberta... uma crisálida num casulo que se encontrou neste nosso confuso plano existencial e espera para nos surpreender quando eclodir como uma bela e segura borboleta.»
(Mónica Seixas Pacheco)
«... a tua pintura, nesta fase, encontrou a amenidade de uma enseada onde tudo se conjuga em reflexos de bom augúrio. Continua e, seja qual for o rumo, a tua pintura será sempre a manifestação da sensibilidade que se entrelaça na firmeza da tua espiritualidade.»
(Fernando Mourão)
«Tens uma alma onde cabem vários mundos, o de todos nós e mais um, exclusivo, de que és serva e rainha, que estás a construir para dar em pedaços de beleza, de fraternidade e de amor. Gostei muito de te ver nestes quadros, tu estás lá... mais bonita ainda, menos frágil, bastante mais segura.»
(Joaquim Pessoa)
Há filmes e personagens que marcam, tornando-se referências mais ou menos duradouras. Do África Minha e de Denys George Fintch-Hatton guardo essencialmente duas frases que encerram dois sentidos cabalmente assimilados desde a primeira das 7 vezes que o vi:
«We are not owners here. We're just passing through» e «I won't love you more because of a piece of paper».
Denys George Finch-Hatton, in Out of Africa
...
Karen: ...I just thought we would do that someday...
Denys: How would a wedding change things?
Karen: I would have somebody of my own.
Denys: No you wouldn't.
Karen: What's wrong with marriage anyway?...
Denys: Karen, I'm with you because I choose to be with you... I don't want to live someone else's idea of how to live. Don't ask me to do that. You have a choice. And you're not willing to do the same for me. I won't be closer to you, I won't love you more because of a piece of paper...
Karen: Why is your freedom more important than mine?
Denys: It isn't and I've never interfered with your freedom...
Karen: My God in the world that you would make there'd be no love at all.
Denys: Or the best kind. The kind we wouldn't have to prove... Are we assuming there's only one way to do this?...
excerto de diálogo entre Denys George Finch-Hatton e Karen Blixen-Finecke, retirado do filme Out of Africa,
baseado no romance auto-biográfico de Karen, publicado sob pseudónimo Isak Dinesen.
...
Por vezes invertem-se os papéis. Por sistema teimo em invertê-los. Sempre me identifiquei mais com o lado de lá do que com este. Há em mim uma espécie de rebeldia e inconformismo crónicos. Neste assunto não houve excepção à minha regra, ainda assim acabei por reconsiderar o pressuposto. Fazia sentido. As circunstâncias, a pessoa em causa, os sentimentos, as sensações, toda uma conjuntura que dava um sentido até aí inexistente.
Primavera, o primeiro dia de regeneração, um ambiente intimista, uma celebração particular, reservada ao número sete, despida de aparato, liberta de trivialidades e redundâncias. Branco apenas porque é luminoso. Preto apenas porque contrasta. Em lugar do vestido de Branca de Neve, um fato de corte direito e minimalista. Flores apenas por ser Primavera. Sorriso apenas porque estava feliz. Dia de semana porque não era necessário ajustar datas a quaisquer disponibilidades alheias.
O conceito de Partilha tornou-se realidade concreta e quotidiana, arejando os sedimentos calcários da existência una, quebrando a cristalização dos hábitos solitários, dissolvendo limites territoriais com a comunhão do mesmo Espaço, transformando o capricho "meu" na vontade "nossa", convertendo as terminações singulares dos monólogos em diálogos de sentidos latos e plurais.
Foi necessário reaprender conceitos e rever posições, ainda assim houve a inegável compensação do companheirismo, do apoio, do entendimento e até da aceitação do que não se entende. As Partilhas quotidianas passaram a estar ligadas por um Elo que fortalecia a estrutura de apoio à reconstrução gradual de uma complexa, sinuosa e labiríntica arquitectura de emoções.

Cátia Mourão, Partilhas quotidianas
«Ya entonces tenía el hábito de escribir las cosas importantes y más tarde, cuando se quedó muda, escribía también las trivialidades, sin sospechar que cincuenta años después sus cuadernos me servirían para rescatar la memoria del pasado y para sobrevivir a mi propio espanto.»
in La Casa de Los Espíritus, Isabel Allende,
I capítulo: Rosa, la bella, 1982.
A experiência virtual trouxe-me resultados insuspeitáveis. Penso que o facto de ter quem lesse as crónicas me fez continuar o projecto sem desistir, o que terá sido afinal mais profícuo para mim do que para os outros, uma vez que consegui criar de mim algum afastamento crítico essencial à auto-análise. Graças ao motor editorial do blog, passei a escrever directamente no teclado - sem as habituais agressões - e, como é habitual em mim, atingi o extremo da incompatibilidade com o papel (desconfio que troquei definitivamente o bloco de notas pelo pc portátil). Quase sem dar por isso, comecei a explorar o html e o javascript para melhorar a funcionalidade e o aspecto estético do espaço, ganhando um tal à-vontade que me aventurei na criação de um portfolio on line.
Também deixei de começar o dia com o longo bocejo de tédio, passando a encontrar um deleite viciante no passeio matinal pelos urls dos "favoritos". No entanto, talvez a consequência mais relevante do enredo na teia da blogosfera tenha sido a descoberta dos conhecimentos virtuais...