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maio 24, 2004

Lá fora

O tempo de incubação chegava ao fim. Era forçoso que chegasse.


Um som agudo quebrou a cristalização do ser, rasgou o silêncio da pele, despertou o corpo dormente da letargia uterina e intemporal, expelindo-o para um estreito limbo entre a transcendência e a realidade. Na tangencia das duas dimensões existia um vácuo, uma ausência latente onde o absoluto e o nulo se fundiam, onde nenhuma referência tinha sentido, onde não existiam palavras ou conceitos, onde a comunicação era interditada pelo isolamento da forma, pelo desajustamento de qualquer ideia, gesto, verbo ou código, pela inconsequência do concreto ou do especulativo.

Vagueava na constância do desequilíbrio, experimentando fenómenos de desrealização e desmaterialização, ora flutuando, deslizando ou articulando movimentos entorpecidos, coagulados, primeiro sem rumo definido, depois com forjados propósitos... Tornava-se fundamental reconstruir referências, normas e, principalmente, hábitos. Percebi que a capacidade de decisão era o fio condutor entre as duas dimensões. Decidi então que arranjaria um emprego para lançar uma âncora na realidade através da projecção exterior de uma obrigatoriedade de cumprimento da rotina de hábitos... o primeiro passo para quebrar a inércia e o isolamento.

Diariamente repetia o mesmo percurso, as mesmas linhas condutoras do lancil do passeio, as mesmas palavras, os mesmos rostos, as mesmas teclas, os mesmos movimentos, sempre, sempre, sempre, sempre, sempre com a mesma música de fundo, colada nos ouvidos, obsessivamente repetindo acordes, letras, ritmos, cadências que pautavam uma existência desarticulada e ainda questionada, presa por finas terminações nervosas em desalinho.

Cátia Mourão

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maio 26, 2004

RE(começo)

Lentamente começava a atrever uma fuga ao tom, a arriscar uma nota acima da escala, um passo fora do lancil, uma palavra outra a outrem que me interpelava na rotina.


O olhar seria tão vago, a expressão tão apática, a presença tão ausente, os gestos tão paralisados, o desequilíbrio tão eminente que despertariam ímpetos de reacção noutros. Lembro uma vez em que a energia do MD se extinguiu com a exaustão do uso repetido e a música cedeu lugar aos sons do exterior. Ouvi e vi a reacção que despertei num pai e o moveu a explicar ao filho «é isto que faz a droga!» Como as aparências iludem e geram fatais equívocos!

Lembro também a vulnerabilidade ao som, ao toque, ao cheiro. Recordo um chamado em jeito de deleite, um olhar, um gesto de convite, um abraço forte, um beijo, um corpo a latejar, uma pulsação acelerada, uma envolvência - travada a tempo pela razão que tornara a desabrochar em mim sem que me tivesse dado conta...

Outros vieram assim, respondendo talvez a um secreto apelo dos sentidos que se regeneravam na dimensão da realidade onde fazia visitas furtivas com maior frequência. Sentia, talvez, uma estranha necessidade de reviver experiências sensoriais, de revisitar trechos de coisas e pessoas, de reinventariar ficheiros de memórias há muito adormecidos no silêncio da espera pelo meu retorno. Recomeçara a desfazer e reatar nós, laços, sensações e sentimentos. Recomeçara também a pintar.

Cátia Mourão

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junho 28, 2004

Assimetrias e antíteses

Relançada na objectividade do real, confrontava a memória do ser passado com a condição do ser presente e constatava a transformação sofrida no desacordo entre as referências arquivadas na memória e as apreensões do momento.



A metamorfose da Crisálida estava completa e o novo ser procurava o ajustamento da forma ao desajustamento do sentir, à inconformidade dos modos, ao inconformismo revelado nas reacções, à hibridez eclética da sua vontade, ao dualismo da sua essência... Ensaiava os contornos da sua imagem no papel ou na tela exprimindo as antíteses interinas, simultaneamente como mulher e homem, como hermafrodita e andrógino...

Auto-retrato no masculino, Cátia Mourão

Cátia Mourão, Auto-Retrato no Masculino

Simbiose Transsexual

Cátia Mourão, Simbiose Transsexual

...

Sentada na cadeira de um barbeiro de bairro suburbano, pedi que me cortassem o cabelo do lado esquerdo, mantendo o comprimento do lado oposto.

- Desculpa mas não percebo como queres - respondeu-me o barbeiro.
- Corta-o todo na metade esquerda da cabeça e não mexas na direita - disse-lhe.
- Como se tivesses dois cortes diferentes? À homem no lado esquerdo e à mulher no lado direito?
- Sim. Isso!
- E como faço atrás? Como pretendes que conjugue a diferença?
- Sei lá! Deixa que se veja o contraste.
- Vai ficar completamente assimétrico!
- É assim mesmo que me sinto por dentro... assimétrica... fico também assimétrica por fora!

Molhou-me o cabelo e começou a cortá-lo com uma lâmina de barbear. Concentrei-me no som do corte raspado, rápido, rente e vi as madeixas caírem sobre o meu colo e no chão.

...

Cabelo Assimétrico, Cátia Mourão

Cátia Mourão, Auto-Retrato com cabelo assimétrico

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Era eu.
Seria eu?
Quem?
Qual?
Era.
...

Cátia Mourão

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julho 02, 2004

«Reflexões»

Foi sobre a assimetria das antíteses que fiz algumas «Reflexões» e, com elas, voltei a "partilhar-me" com os Outros.



...

Na Agenda Cultural vinha anunciado:

Cátia Mourão

Exposição de Pintura e Desenho

Reflexões

18 a 31 de Dezembro - 2000

Átrio da Delegação do Instituto Português da Juventude

«Reflexões é uma viagem ao íntimo da pintora, um exercício de introspecção e a materialização na pintura e no desenho de um microcosmos autobiográfico que testemunha um longo período de conturbações interiores, marcado por um sentimento de angústia latente.»

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A Partilha

Cátia Mourão, A Partilha

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Hoje tenho a sensação de que o termo "partilha" não é o mais adequado para descrever a forma como me apresentei e representei no evento. A excêntrica assimetria do corte de cabelo, o excessivo brilho do gloss com que carreguei o rosto, a evidência da magreza no aperto da roupa... as telas literalmente expostas contra um muro de placards, ordeiramente sequenciadas como se prontas estivessem a serem baleadas de rajada mas sem vacilarem - pelo contrário, mantendo a firmeza de uma causa.

Lembro claramente as expressões de quem foi à inauguração. Era angústia que viam e angústia que sentiam e mostravam.

Agora tenho a certeza de que não me partilhei com ninguém... Na verdade violentei todos quantos me viram e reviram, sem contudo me reconhecerem. Esforçaram-se por transmitir palavras de agrado mas o semblante traía-os. Alguns chegaram mesmo a escrever:

«Gostei, sobretudo porque me fica a esperança de que, depois da escuridão profunda onde mergulhaste, venha a surgir a luz de novo na tua vida.»

(Maria Hélder Valério)

«(...) é uma exaltação do lado sobrevivente do que em ti cria, pois se o criador dentro de ti é inflexível e determinado pela obra, o ser humano que o suporta é frágil como todos os mortais! Hoje não apelo ao criador, esse monstro obstinado, mas à criatura que sobrevive a tudo isso.»

(Domingos Miguel Soares)

«Para mim tu és e serás sempre a eterna fénix renascida das cinzas para um novo dia, para um renascer não como artista - porque essa está bem viva - mas como ser humano frágil e belo que és. Aguardarei o tempo que for preciso por ti, minha amiga. Aguardarei ansiosa... Tens de resgatar o teu direito à VIDA... no mais profundo dos mares do teu ser.»

(Madalena Bobone)

«Quando deres de caras com a morte, faz-me um favor: dá-lhe um par de estalos da minha parte e diz-lhe que ainda não dançaste o suficiente!»

(Pedro Almeida Gonçalves)

«Esta tua exposição intitulada Reflexões é, sem dúvida, uma mensagem desnudada do teu ser, sem as roupas da aparência, sofrida e interiorizada. Mas será que a podemos intitular de libertadora? Penso que não. Retratas nela os próprios dualismos, a dor e sementes de um passado que pode estar longínquo ou de um passado ainda presente. Libertação é construir caminhos de futuro, sem réstias de passado, onde o teu ser se exprima na simbiose perfeita da tua forte criatividade interna com o advento de mundos sem dor e sofrimento. (...) Uma simples Reflexão de um pintor que gosta de ti e está ciente do teu real valor. Continua com essa força.»

(António Sem)

Cátia Mourão

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agosto 06, 2004

O Abraço

A violenta imposição das «Reflexões» contrastou com a efectiva partilha dos comentários e, ao invés de me levar a repensar as formas de interacção com o Outro, fez-me enquistar a agressividade...



Era Inverno dentro e fora de mim. A claridade do dia desmaiava sobre as últimas horas de uma sexta-feira que se previa como tantas outras, para as quais o fim-de-semana mais não era do que um conceito operativo de divisão e organização do tempo material, sem qualquer concordância com a continuidade obsessiva e o estado caótico da dimensão emocional. Porém, naquela sexta-feira, a transposição física dos portões que separavam o local de trabalho do exterior desgovernado significou também a transposição emotiva de uma barreira de androginia auto-inflingida.
O encontro casual de um vago conhecimento trouxe uma presença constante ao meu quotidiano. Alguém que apenas olhei mas não vi, que recusei antes de conhecer, que repeli sem sequer ter tocado, apenas pela ameaça latente que reconhecia na espécie com a qual instintivamente identificava. A estratégia de defesa foi, inevitavelmente, o ataque; o que me surpreendeu foi a ausência de reactividade, o silêncio e a observação atenta de cada gesto meu, talvez um exercício de investigação assistido pelo benefício da dúvida metódica; a surpresa desarmou-me, neutralizando-me as forças.
Deixei-me ficar. Deixei passar os transportes sem intenção de seguir neles para o destino certo e seguro, porém rotineiro e desinteressante.
Arrisquei a imprudência. Talvez demasiado. Talvez na dose exacta.
As palavras correram à rédea solta, sem medida, sem tempo, claras, inteiras, enchendo a noite com um luar de esperança e abrindo veredas de compromisso pela madrugada.
Com um abraço despedi-me do passado e voltei a dar e a receber num só gesto de partilha.

O Abraço

Cátia Mourão, O Abraço

Cátia Mourão

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setembro 07, 2004

Luz

A minha luz nasceu a 3 de Março de 2001 no quintal de uma velha casa em Alcântara.



Esperei por ela talvez 7 anos - desde que morreu o meu cão, penso - mas o desgosto foi tão profundo que não imaginei voltar a querer uma companhia à qual me afeiçoasse do mesmo modo. Errei, claro, pois não precisei de muito tempo para ser seduzida por uma gata de rua extraordinária. No lugar onde eu vivia, cada um pensava ser seu único dono, tal era a forma pronta como respondia a qualquer nome pelo qual a chamassem. Comia em casa de todos e a todos dava provas de que merecia. Ao meu pai fê-lo mostrando os dotes de caçadora, oferecendo-lhe uma enorme ratazana numa noite de Verão. À minha mãe - sempre mais renitente - veio apelar à maternidade, apresentando as crias que havia parido dois dias antes e trazendo-as, uma a uma, para o nosso quintal. Por lá foi ficando até que um dia desapareceu sem deixar rasto. Voltei a sentir o vazio anterior.
Quando me afundei na depressão lembrei-me muitas vezes daquela gata e de como me senti alegre quando ela fez parte dos meus dias. Desejei outra e falei sobre o assunto com os meus pais que acharam pouco própria a altura para eu assumir responsabilidades sobre uma vida alheia quando pouco cuidava da minha. Andei um ano com a ideia e pensei que se tinha procurado a responsabilidade e a rotina num emprego, também seria natural que as procurasse numa vida. Tinha meios para sustentá-la e precisava dela para me apegar à minha.
Assumi o compromisso de Vida quando adoptei uma gatinha de mês e meio, magra e doente como eu, a precisar de mim como eu dela. Quando peguei nela ao colo, agarrou-se-me com tal força que gritava a cada tentativa minha para afastá-la. Trouxe-a assim mesmo, agarrada à camisola, percebendo que não tinha sido eu a escolhê-la, mas exactamente o contrário.
Levei-a para casa, determinada a curá-la e disposta a enfrentar a vontade contrária dos pais. Tinha encontrado nela uma razão, uma força, uma luz, a albedo. Podia ter-lhe dado o nome Luz, mas chamei-lhe Anaïs, homenageando assim a minha escritora preferida na época - Anaïs Nin.
A Anaïs acabou por ser aceite e com ela tiraram-me a primeira fotografia onde voltei a sorrir, algo que não fazia há muito.
Ainda hoje, sempre que chego a casa, vejo-a correr para mim como uma luz vinda do fundo do corredor, lembrando-me que tenho pelo menos uma razão para não ceder à angústia.

Luz

Cátia Mourão,

Cátia Mourão

| Partilhas (10) |

setembro 16, 2004

Espaço

Fechado ou aberto; confinado ou liberto; medido ou desmesurado; dentro ou fora; ordenado ou ao acaso; íntegro ou em ruína; criado ou existente; obscuro ou luminoso; silencioso ou sonoro; pesado ou leve; habitado ou vazio; identificado ou desconhecido; [feito] nosso ou de outrem; onde nos encontramos ou perdemos...


O primeiro era amplo, circunscrito, concreto e vago;
Era escuro, claro, repleto e sem nada;
Tinha as portas sempre fechadas e abertas;
Tinha 4 lanços de escadas por dentro e 4 pares de degraus por fora por onde se entrava e se saía sem nunca se entrar nem se sair com ou sem fio de Ariadne porque não tinha corredores mas somente patamares que conduziam a outros espaços isolados que nunca se tocavam e que eram habitados por desejos prisioneiros em formas que cresciam sozinhas mas nunca sós entre muitas paredes e muitos livros e muitos quadros e cada vez mais fotografias e cada vez mais lembranças e perdas que se acumulavam em sedimentos de sensações e sentimentos recalcados que um dia cobriram inteiramente uma das formas que habitava um dos espaços e fizeram-na explodir como um vulcão de onde brotou lava incandescente que desfez todas as paredes e espalhou-se por todos os outros espaços que a partir de então se uniram num só.

O segundo espaço não tem memórias, é muito amplo, muito claro, muito calmo, muito próximo de tudo e para ele levei o Abraço e a Luz. Os álbuns de fotografias e os quadros ficaram no primeiro espaço. Este é reservado a uma nova história.

Cátia Mourão

| Partilhas (7) |

setembro 22, 2004

«Vislumbres»

No novo Espaço vislumbrei os primeiros vultos da paz interior. Nele concluí a tese de Mestrado e iniciei uma nova fase na pintura.



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Uma vez mais, na Agenda Cultural, vinha anunciada uma exposição:

Cátia Mourão

Exposição de Pintura

Vislumbres

16 a 28 de Outubro - 2002

Átrio da Delegação do Instituto Português da Juventude

«Vislumbres reúne uma colecção de obras marcadas pela conjugação de materiais e técnicas que proporcionam diálogos de texturas e combinam pintura, desenho e colagem. A diluição ou emergência de formas diáfanas em fundos claros e luminosos confere às representações um acentuado grau de imaterialidade, situando-as num limbo nebuloso que traduz sensações de desrealização.»

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Revelação I

Cátia Mourão, Revelação I

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Nunca antes havia tocado a claridade e agora ela dominava as superfícies como a neblina das manhãs, simultaneamente revelando e encobrindo formas e sentidos, desvanecendo cores e sons. A letargia e o silêncio habitavam cada tela, criando registos de suspensão e intemporalidade, desmaterializando a matéria tangível para transformá-la em oniromorfoses.
Quase todas as telas utilizadas sofreram um processo de catarse. Tinham antes sido domínio da Depressão profunda e constituíram a imagem da exposição «Reflexões». Repintei-as; revesti-as de luz com velaturas brancas que funcionavam como cortinas para o passado, deixando vislumbrar trechos das pinturas anteriores. Quis ultrapassar mas não esquecer. Eram referências minhas.

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Escreveram-me algumas impressões sobre os «Vislumbres»:

«A mancha etérea só aparentemente encobre a expressividade.»

(José António Proença)

«Vislumbrei a paz e harmonia que procuravas e que agora ocupa o lugar dos traços pesados da tua obra de outrora.»

(Ana Remédios Salvado)

«Neste teu vislumbre, essa pequena janela da tua alma que ofereces a todos, vi uma serenidade que não via há muito - se é que alguma vez a vi em ti... -, uma viagem de procura e descoberta... uma crisálida num casulo que se encontrou neste nosso confuso plano existencial e espera para nos surpreender quando eclodir como uma bela e segura borboleta.»

(Mónica Seixas Pacheco)

«... a tua pintura, nesta fase, encontrou a amenidade de uma enseada onde tudo se conjuga em reflexos de bom augúrio. Continua e, seja qual for o rumo, a tua pintura será sempre a manifestação da sensibilidade que se entrelaça na firmeza da tua espiritualidade.»

(Fernando Mourão)

«Tens uma alma onde cabem vários mundos, o de todos nós e mais um, exclusivo, de que és serva e rainha, que estás a construir para dar em pedaços de beleza, de fraternidade e de amor. Gostei muito de te ver nestes quadros, tu estás lá... mais bonita ainda, menos frágil, bastante mais segura.»

(Joaquim Pessoa)

Cátia Mourão

| Partilhas (3) |

setembro 30, 2004

O Elo

Há filmes e personagens que marcam, tornando-se referências mais ou menos duradouras. Do África Minha e de Denys George Fintch-Hatton guardo essencialmente duas frases que encerram dois sentidos cabalmente assimilados desde a primeira das 7 vezes que o vi:

«We are not owners here. We're just passing through» e «I won't love you more because of a piece of paper».

Denys George Finch-Hatton, in Out of Africa



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Karen: ...I just thought we would do that someday...
Denys: How would a wedding change things?
Karen: I would have somebody of my own.
Denys: No you wouldn't.
Karen: What's wrong with marriage anyway?...
Denys: Karen, I'm with you because I choose to be with you... I don't want to live someone else's idea of how to live. Don't ask me to do that. You have a choice. And you're not willing to do the same for me. I won't be closer to you, I won't love you more because of a piece of paper...
Karen: Why is your freedom more important than mine?
Denys: It isn't and I've never interfered with your freedom...
Karen: My God in the world that you would make there'd be no love at all.
Denys: Or the best kind. The kind we wouldn't have to prove... Are we assuming there's only one way to do this?...

excerto de diálogo entre Denys George Finch-Hatton e Karen Blixen-Finecke, retirado do filme Out of Africa,
baseado no romance auto-biográfico de Karen, publicado sob pseudónimo Isak Dinesen.

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Por vezes invertem-se os papéis. Por sistema teimo em invertê-los. Sempre me identifiquei mais com o lado de lá do que com este. Há em mim uma espécie de rebeldia e inconformismo crónicos. Neste assunto não houve excepção à minha regra, ainda assim acabei por reconsiderar o pressuposto. Fazia sentido. As circunstâncias, a pessoa em causa, os sentimentos, as sensações, toda uma conjuntura que dava um sentido até aí inexistente.

Primavera, o primeiro dia de regeneração, um ambiente intimista, uma celebração particular, reservada ao número sete, despida de aparato, liberta de trivialidades e redundâncias. Branco apenas porque é luminoso. Preto apenas porque contrasta. Em lugar do vestido de Branca de Neve, um fato de corte direito e minimalista. Flores apenas por ser Primavera. Sorriso apenas porque estava feliz. Dia de semana porque não era necessário ajustar datas a quaisquer disponibilidades alheias.

O conceito de Partilha tornou-se realidade concreta e quotidiana, arejando os sedimentos calcários da existência una, quebrando a cristalização dos hábitos solitários, dissolvendo limites territoriais com a comunhão do mesmo Espaço, transformando o capricho "meu" na vontade "nossa", convertendo as terminações singulares dos monólogos em diálogos de sentidos latos e plurais.
Foi necessário reaprender conceitos e rever posições, ainda assim houve a inegável compensação do companheirismo, do apoio, do entendimento e até da aceitação do que não se entende. As Partilhas quotidianas passaram a estar ligadas por um Elo que fortalecia a estrutura de apoio à reconstrução gradual de uma complexa, sinuosa e labiríntica arquitectura de emoções.

Partilhas quotidianas

Cátia Mourão, Partilhas quotidianas

Cátia Mourão

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outubro 26, 2004

A Teia

«Ya entonces tenía el hábito de escribir las cosas importantes y más tarde, cuando se quedó muda, escribía también las trivialidades, sin sospechar que cincuenta años después sus cuadernos me servirían para rescatar la memoria del pasado y para sobrevivir a mi propio espanto.»

in La Casa de Los Espíritus, Isabel Allende,
I capítulo: Rosa, la bella, 1982.



Ao longo de 5 anos fui fazendo registos da travessia depressiva. Avessa a novidades desde que aprendera a dar um laço nos atacadores, anotava tudo com caneta de aparo e tinta permanente sépia. Já o meu pai escrevia directamente no teclado do computador e eu ainda me recusava à frieza impessoal da máquina de escrever. Mesmo assim, aceitava melhor a objectividade das teclas martelando o papel através da fita vermelha e preta, do que o ecrã onde, por vezes, as palavras eram engolidas e caiam no esquecimento de pólos metálicos. A relação que tinha com os computadores baseava-se na total desconfiança e na agressão física do hardware, acompanhada de insultos berrados ou escritos ao office assistant do Word.
Das guerras intestinas com a máquina havia saído a promessa de um boicote à internet, apenas levantado por orgulho depois de me fazerem engolir um «não tens e-mail porque és uma retrógrada chata». No mesmo dia, instalei o outlook express e não tardei a receber um link para um blog, em jeito de convite a "meter o nariz" na vida de alguém. Percebi que se tratava de uma moda onde meio mundo se expunha e exibia, às claras ou escondido atrás de um pseudónimo, com direito democrático a 5 minutos diários de tempo de antena. Inicialmente não entendi a pertinência ou utilidade, mas, com o tempo, a rede de links conduziu-me a certos espaços que me prenderam a atenção e levaram a estrear os "favoritos". Sem me perceber fui ficando presa na Teia de alguns deprimidos (como eu) que usavam os blogs como forma de catarse.
Quando me senti melhor, mais fortalecida e mais distante do conteúdo depressivo registado nas resmas de papel que escrupulosamente escrevia, resolvi estrear o formato virtual. Soube desde o início que não viria a usá-lo como diário on line, negando, por conseguinte, a essência do espaço. Tão pouco admiti a hipótese de uma exposição pública, mesmo assumindo o nome, posto que versaria exclusivamente sobre elementos relevantes ao entendimento do processo depressivo e jamais questões de carácter pessoal. Assim o blog pareceu-me o modelo adequado para exercitar a memória, pôr os acontecimentos em perspectiva, entender o que se passou, exorcizar possíveis resíduos incómodos e partilhar a vivência para que outros se sentissem menos sós.

A experiência virtual trouxe-me resultados insuspeitáveis. Penso que o facto de ter quem lesse as crónicas me fez continuar o projecto sem desistir, o que terá sido afinal mais profícuo para mim do que para os outros, uma vez que consegui criar de mim algum afastamento crítico essencial à auto-análise. Graças ao motor editorial do blog, passei a escrever directamente no teclado - sem as habituais agressões - e, como é habitual em mim, atingi o extremo da incompatibilidade com o papel (desconfio que troquei definitivamente o bloco de notas pelo pc portátil). Quase sem dar por isso, comecei a explorar o html e o javascript para melhorar a funcionalidade e o aspecto estético do espaço, ganhando um tal à-vontade que me aventurei na criação de um portfolio on line.
Também deixei de começar o dia com o longo bocejo de tédio, passando a encontrar um deleite viciante no passeio matinal pelos urls dos "favoritos". No entanto, talvez a consequência mais relevante do enredo na teia da blogosfera tenha sido a descoberta dos conhecimentos virtuais...

Cátia Mourão

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