Desabituada de escrever no papel, passei a fazer anotações numa sebenta virtual, anónima e conceptualmente oposta à Sombra no Silêncio.
«Sinto...
Cinco... ou mais? Talvez mais... É tudo tão intenso que custa acreditar poder ser proporcionado por apenas cinco. Seja como for, o que sinto não cabe em mim. Bom e/ou mau.
Definitivamente existe mais qualquer coisa... uma espécie de amplificador dos tais cinco identificados... ou talvez uma dimensão de ebriez onde se conjugam. Ainda não lhe deram nome. Amanheci com a palavra Ebriézia nos lábios. Procurei-a e não a encontrei. Não existia. Existe agora que a pensei e senti. Identifico-me com ela, de tão apaixonada que sou por tudo, por sensações, por luzes, por cores, por sons, por cheiros, por sabores, por gestos, por imagens, por memórias, por frases... O termo descreve com exactidão o mundo onde vivo com a intensidade de quem tem a morte anunciada para um futuro próximo e quer sorver tudo até à exaustão com medo de perder algum pormenor...».

Cátia Mourão, banner do blog Ebriésia
...
Quase todos os textos do Ebriésia denunciavam uma instabilidade emocional profunda que eclodiria na inevitável recaída... Não tardou para que encerrasse o espaço e encetasse outras linhas e outras experiências onde tentei o reencontro do Próprio no Outro por meio de um feedback diário, imediato e impulsivo, intencionalmente não reflectido para que resultasse autêntico. No entanto, constatei a potencialidade do equívoco comunicativo efectivado pelo filtro do ecrã, pela ausência de olhos, bocas, gestos ou expressões corporais. Por associação de ideias, lembrei toda a distância indelével entre a realidade e a ficção expressa nas palavras de outrem:
«tudo é potencialmente equívoco. O que faço é exagerar, criando uma ficção à volta das imagens, mas a realidade também tem um lado ficcional.»
excerto de entrevista de Filipa César a Celso Martins,
in Expresso, 20 de Maio de 2003
No fundo não existia diferença. Afinal também eu acabava por tornar clinicamente metódico o mesmo meio para atingir um fim oposto à via mais óbvia. Diria mesmo que sempre criei uma ficção à volta de tudo... A virtualidade apenas facilitava o trabalho que sempre tivera no campo do concreto.
A confluência da Primavera com o Ebriésia e outros acontecimentos quotidianos enfraqueceram-me como uma praga sobre os rebentos da recuperação.
«Como pode doer uma coisa que não se sente nem se agarra? No entanto, ela dói... E ainda não há médico que nos tire uma radiografia para localizar o epicentro da dor e extraí-la com simples ou complexa cirurgia. É por isso que primeiro os doentes da alma iam para a fogueira, depois para os hospícios e agora para o divã do psiquiatra... outros, andam por aí a vaguear no espaço cibernético, tão vago e inconcreto como a própria alma, ou afloram à pretensa realidade em busca de iluminação transcendente... continua a dualidade, a dialéctica da criatura humana no limbo entre as dimensões material e extra-sensorial, esmagada na tangencia de ambas, impotente perante a discrepância que existe entre o prurido que marca o sarar da ferida da carne e a cadência latejante de uma gangrena na alma...»
Morreram-me as flores e os rebentos dessa alma inconcreta, atacados que foram pela praga da recaída depressiva. Isolei-me e voltei a anular-me compulsivamente. Algo em mim impelia-me a uma destruição progressiva, subterrânea, e eu acedia diariamente ao portal desse registo como se esperasse a notícia que me aniquilasse de uma vez por todas. Que andei a fazer de mim? Onde foi a minha essência? Onde esqueci a sensatez? Onde perdi a "sanidade"? Para onde se extraviaram os conceitos? Alienei-me uma vez mais e senti que
deslizava pela
terra
fria
húmida
com o corpo
|ainda|
morno,
as veias
|já|
dormentes
no silêncio de outra manhã
cinzenta
lenta
com a carne gravada pela embriaguez
do sangue
surdo
ensandecido
onde nenhuma palavra
encontra
sentido
A calote da estação quente sufocou-me. Despertou em mim a ideia de desistência e o desejo de transmutação.
«Vejo-te sempre, desde que começas a descer a rua interminável no sentido contrário ao meu. És a primeira a quem desejo bom dia. Prendo o olhar no corpo de lince, nos movimentos elásticos, nos passos largos e firmes; fixo cada peça que trazes, cada corda de cabelo, cada sorriso nos lábios grossos, cada reflexo na pele negra.
Hoje tenho vontade de te pedir que troques comigo de corpo. Estou a precisar de mudar o meu. Dou-te a minha cor de luz em troca da tua escuridão. Se soubesses como ontem desejei transformar-me em alguém diferente, em ti, por exemplo, depois de ter tropeçado e caído... Teria sido tão mais fácil termos trocado de pele dentro de uma qualquer casa-de-banho onde entrei para esconder a vergonha e deitá-la pelo cano, afogando-a com um grito junto com outras mágoas... Teria saído como nova! Mas saí de lá a mesma, com a mesma pele vermelha da sova de areia que o vento me deu enquanto avançava pelas dunas e percorria com os dedos as cristas de sal, queimada pelos raios do primeiro Estio... Saí com a pele do rosto ainda mais salgada, cortada pelo pranto que teimava em não parar; saí com o corpo ainda mais entorpecido e desajeitado pela fuga de veneno; saí ainda mais rastejante com o peso do orgulho e da falha...
Hoje preciso que me deixes abraçar-te e trocar-me contigo. Quero passar na rua e ser confundida contigo; quero que vejam em mim essa cor castanha, essas tranças corridas, esse corpo esguio, esse rosto sem nome, sem memória, sem lugar... sem o cansaço do eu...»

Cátia Mourão, Transmutação
Passado um mês soube-lhe o nome. Recusei o café. Continuei a preferir a calçada. Quebrou-se o desejo de transmutação quando lhe conheci o vício do tabaco, a dieta de carne, a saga dos dias, a terminologia chã. Ainda estava pior que eu. Ainda era pior que eu. O modelo não servia. A mudança não podia ser por ali. Por onde, então?
Falhadas as tentativas de transmutação pela via externa, à erupção comunicativa sucedeu-se o refluxo do isolamento.

Cátia Mourão, A Outra
Embora na altura já soubesse que os processos de reajustamento dos sentidos com a consciência e desta com as emoções não encontram paralelo no tratamento de uma entorse ou fractura exposta, desconhecia por completo a falta de preparação e vontade da maioria dos profissionais de saúde física para lidar com doenças do foro psíquico. No momento em que o constatei, achei que a grande maioria dos enfermeiros não passava de bate-chapas e os médicos de aspirantes a mecânicos. Salvo raríssimas excepções, é com desinteresse e leviandade que destratam, ofendem, agridem, amarram e adormecem a condição humana de quem tem o infortúnio de lhes cair nas mãos em alturas de desconserto. Concluí que nem a possibilidade de reestruturação mental passava pelas ligaduras das urgências hospitalares, nem o conforto psicológico adviria da verbalidade ultrajante de quem desempenha trabalhos oficinais, por mais que a estes se dedique com inquestionável zelo. São ofícios outros que requerem outros preceitos. Confundi-los é como falar um dialecto numa tribo diferente, resultando em algo semelhante à prescrição de um medicamento para maleita diversa...
«(...) the ambitions are wake up, breathe, keep breathing the ambitions are wake up. breathe, keep breathing
you have driven these streets a thousand times and all they offer is their exhaustion
your nightmares have your name now
you exit the glitter storm, go home alone and embrace the violence instead
this city has claimed all your blood and memory this is cool and unusual punishment
you go for years without touching another
never think of the why you are so casual about brutality
doctor says "take this it'll settle you down" doctor says "take this it'll settle your system" doctor says "take this we'll settle the bill" doctor says "take this it'll settle the score"
the ambitions are wake up, breathe, keep breathing the ambitions are wake up, breathe, keep breathing. (...)
the sweet things don't stick around but the bullshit lasts forever.»
Nicole Blackman (Golden Palominos),
The Ambitions Are, in «Dead Inside» *

Cátia Mourão, Arcano XXII