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novembro 03, 2004

«Ebriésia», ou o Equívoco

Desabituada de escrever no papel, passei a fazer anotações numa sebenta virtual, anónima e conceptualmente oposta à Sombra no Silêncio.



Encetei a primeira linha num período em que a Sombra das memórias e tensões passadas começava a projectar-se no presente, apagando lentamente as minhas luzes de presença. Numa tentativa de reanimação do que em mim existira de espontâneo e sensitivo, jacente sob a crosta de conceitos e reflexões metódicas, ensaiei a ebriez das palavras como catalizador de emoções.
O primeiro trecho foi sintomático da inoperância do modo, denunciando em cada letra sentimentos forjados no desespero de uma procura que à partida sabia não apenas infrutífera mas também uma concreta (des)ilusão...

«Sinto...
Cinco... ou mais? Talvez mais... É tudo tão intenso que custa acreditar poder ser proporcionado por apenas cinco. Seja como for, o que sinto não cabe em mim. Bom e/ou mau.
Definitivamente existe mais qualquer coisa... uma espécie de amplificador dos tais cinco identificados... ou talvez uma dimensão de ebriez onde se conjugam. Ainda não lhe deram nome. Amanheci com a palavra Ebriézia nos lábios. Procurei-a e não a encontrei. Não existia. Existe agora que a pensei e senti. Identifico-me com ela, de tão apaixonada que sou por tudo, por sensações, por luzes, por cores, por sons, por cheiros, por sabores, por gestos, por imagens, por memórias, por frases... O termo descreve com exactidão o mundo onde vivo com a intensidade de quem tem a morte anunciada para um futuro próximo e quer sorver tudo até à exaustão com medo de perder algum pormenor...».

banner do blog Ebriésia

Cátia Mourão, banner do blog Ebriésia

...

Quase todos os textos do Ebriésia denunciavam uma instabilidade emocional profunda que eclodiria na inevitável recaída... Não tardou para que encerrasse o espaço e encetasse outras linhas e outras experiências onde tentei o reencontro do Próprio no Outro por meio de um feedback diário, imediato e impulsivo, intencionalmente não reflectido para que resultasse autêntico. No entanto, constatei a potencialidade do equívoco comunicativo efectivado pelo filtro do ecrã, pela ausência de olhos, bocas, gestos ou expressões corporais. Por associação de ideias, lembrei toda a distância indelével entre a realidade e a ficção expressa nas palavras de outrem:

«tudo é potencialmente equívoco. O que faço é exagerar, criando uma ficção à volta das imagens, mas a realidade também tem um lado ficcional.»

excerto de entrevista de Filipa César a Celso Martins,
in Expresso, 20 de Maio de 2003

No fundo não existia diferença. Afinal também eu acabava por tornar clinicamente metódico o mesmo meio para atingir um fim oposto à via mais óbvia. Diria mesmo que sempre criei uma ficção à volta de tudo... A virtualidade apenas facilitava o trabalho que sempre tivera no campo do concreto.

Cátia Mourão

| Partilhas (8) |

novembro 12, 2004

Dor de Alma

A confluência da Primavera com o Ebriésia e outros acontecimentos quotidianos enfraqueceram-me como uma praga sobre os rebentos da recuperação.



Sempre acreditei que as Estações intermédias funcionam como prova de resistência para os seres vivos. O som dos aguaceiros, o desmaio das folhas, o cheiro da terra húmida, do mosto das uvas, o aroma das castanhas assadas, o sabor das romãs e da água-pé, a cor cinzenta das manhãs e a luz coada dos fins de tarde no Outono, induzem a uma melancolia depressiva; o canto dos pássaros no despertar do dia, o orvalho da madrugada sobre o verde, os primeiros raios de sol, o desabrochar das flores e das folhas, o odor doce do pólen na Primavera, exigem uma força anímica muitas vezes roubada pelo Inverno. Assim acontece comigo. Assim aconteceu comigo na última Primavera. Doeu-me a alma. Com essa dor tão pouco clara tentei objectivar o subjectivo, escrevendo:

«Como pode doer uma coisa que não se sente nem se agarra? No entanto, ela dói... E ainda não há médico que nos tire uma radiografia para localizar o epicentro da dor e extraí-la com simples ou complexa cirurgia. É por isso que primeiro os doentes da alma iam para a fogueira, depois para os hospícios e agora para o divã do psiquiatra... outros, andam por aí a vaguear no espaço cibernético, tão vago e inconcreto como a própria alma, ou afloram à pretensa realidade em busca de iluminação transcendente... continua a dualidade, a dialéctica da criatura humana no limbo entre as dimensões material e extra-sensorial, esmagada na tangencia de ambas, impotente perante a discrepância que existe entre o prurido que marca o sarar da ferida da carne e a cadência latejante de uma gangrena na alma...»

Morreram-me as flores e os rebentos dessa alma inconcreta, atacados que foram pela praga da recaída depressiva. Isolei-me e voltei a anular-me compulsivamente. Algo em mim impelia-me a uma destruição progressiva, subterrânea, e eu acedia diariamente ao portal desse registo como se esperasse a notícia que me aniquilasse de uma vez por todas. Que andei a fazer de mim? Onde foi a minha essência? Onde esqueci a sensatez? Onde perdi a "sanidade"? Para onde se extraviaram os conceitos? Alienei-me uma vez mais e senti que

                                        deslizava pela

                                                                      terra

                                                                                     fria

                                                                                               húmida


                                        com o corpo

|ainda|

                                        morno,

                                        as veias

|já|

                                        dormentes


                                        no silêncio de outra manhã

                                        cinzenta

                                        lenta



                                        com a carne gravada pela embriaguez

                                        do sangue


|no segundo|

                                        surdo

                                        ensandecido


                                        onde nenhuma palavra

                                        encontra

                                        sentido




Cátia Mourão

| Partilhas (6) |

dezembro 06, 2004

Transmutação

A calote da estação quente sufocou-me. Despertou em mim a ideia de desistência e o desejo de transmutação.



Lembro-me de sentir o desalento numa tarde de canícula, depois de uma contrariedade insignificante e eivada de mal entendidos se ter abatido sobre uma vontade alegada por pretextos insípidos. Pesaram-me os músculos e a consciência. Antecipei a hora de saída após uma mórbida limpeza dos ficheiros no computador e meticulosa arrumação da secretária. Fiz deslizar a chave do armário para dentro de um envelope onde escrevi o nome de outrem a quem confiaria os resultados de 3 anos de investigação. Entregava tudo. Desistia de tudo. Colocava um ponto final em tudo.
Toda a viagem até casa foi feita sem vacilar, mas quando abri a porta e vi os dois gatos felizes com o meu regresso, reconsiderei. Afinal não estava disposta a abrir mão de tudo por miudezas de contornos pouco claros.
De facto, tudo tem um fim, mas entendi que o fim de certas coisas não tem de ser encarado como o fim apocalíptico e sim como um processo natural de sucessão. Talvez não fosse caso para a desistência. Talvez resultasse uma transmutação de estado... Estava capaz de trocar de corpo e rosto até com alguém que não conhecia, apenas para fugir ao cansaço de mim mesma. Imaginei, um dia, que me transmutava com uma pessoa de quem ignorava o próprio nome mas que precipitadamente julguei feliz apenas pelo sorriso forjado na obrigação das manhãs:

«Vejo-te sempre, desde que começas a descer a rua interminável no sentido contrário ao meu. És a primeira a quem desejo bom dia. Prendo o olhar no corpo de lince, nos movimentos elásticos, nos passos largos e firmes; fixo cada peça que trazes, cada corda de cabelo, cada sorriso nos lábios grossos, cada reflexo na pele negra.
Hoje tenho vontade de te pedir que troques comigo de corpo. Estou a precisar de mudar o meu. Dou-te a minha cor de luz em troca da tua escuridão. Se soubesses como ontem desejei transformar-me em alguém diferente, em ti, por exemplo, depois de ter tropeçado e caído... Teria sido tão mais fácil termos trocado de pele dentro de uma qualquer casa-de-banho onde entrei para esconder a vergonha e deitá-la pelo cano, afogando-a com um grito junto com outras mágoas... Teria saído como nova! Mas saí de lá a mesma, com a mesma pele vermelha da sova de areia que o vento me deu enquanto avançava pelas dunas e percorria com os dedos as cristas de sal, queimada pelos raios do primeiro Estio... Saí com a pele do rosto ainda mais salgada, cortada pelo pranto que teimava em não parar; saí com o corpo ainda mais entorpecido e desajeitado pela fuga de veneno; saí ainda mais rastejante com o peso do orgulho e da falha...
Hoje preciso que me deixes abraçar-te e trocar-me contigo. Quero passar na rua e ser confundida contigo; quero que vejam em mim essa cor castanha, essas tranças corridas, esse corpo esguio, esse rosto sem nome, sem memória, sem lugar... sem o cansaço do eu...»

Transmutação, Cátia Mourão

Cátia Mourão,

Passado um mês soube-lhe o nome. Recusei o café. Continuei a preferir a calçada. Quebrou-se o desejo de transmutação quando lhe conheci o vício do tabaco, a dieta de carne, a saga dos dias, a terminologia chã. Ainda estava pior que eu. Ainda era pior que eu. O modelo não servia. A mudança não podia ser por ali. Por onde, então?

Cátia Mourão

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janeiro 17, 2005

A Outra

Falhadas as tentativas de transmutação pela via externa, à erupção comunicativa sucedeu-se o refluxo do isolamento.



Voltada para o próprio avesso, constatei (uma vez mais) e escrevi que «o isolamento proporciona uma infindável viagem ao interior do ser individual. Nessa solidão a máscara social desvanece, mergulha-se num estado larvar onde se tecem verdades intrínsecas [sem correspondência com a realidade] e experimenta-se uma metamorfose no sentido inverso, ou seja do estado físico para o estado essencial do "eu". Passo por uma das mais complexas fases, algures no limbo entre a matéria e o transcendente.»
Numa das pródigas errâncias pelo terreno inconcreto dessa viagem, senti claramente que corria para a loucura na sequência da fuga a um episódio de pura desconexão emotiva. Hoje concluo que a loucura é uma fuga em si, voluntária ou inconsciente, desencadeada pela auto-negação do presente e da memória enquanto vivência do esquecimento, funcionando como suspensão crónica de um tempo ilusório no estado de auto-isolamento.
Não consigo precisar a duração desse período mas tenho ainda ideia de uma primeira fase de sensação do mundo através de um plástico, sufocada e distorcida, e uma segunda fase de percepção da realidade em centrifugação.



Cátia Mourão,

Embora na altura já soubesse que os processos de reajustamento dos sentidos com a consciência e desta com as emoções não encontram paralelo no tratamento de uma entorse ou fractura exposta, desconhecia por completo a falta de preparação e vontade da maioria dos profissionais de saúde física para lidar com doenças do foro psíquico. No momento em que o constatei, achei que a grande maioria dos enfermeiros não passava de bate-chapas e os médicos de aspirantes a mecânicos. Salvo raríssimas excepções, é com desinteresse e leviandade que destratam, ofendem, agridem, amarram e adormecem a condição humana de quem tem o infortúnio de lhes cair nas mãos em alturas de desconserto. Concluí que nem a possibilidade de reestruturação mental passava pelas ligaduras das urgências hospitalares, nem o conforto psicológico adviria da verbalidade ultrajante de quem desempenha trabalhos oficinais, por mais que a estes se dedique com inquestionável zelo. São ofícios outros que requerem outros preceitos. Confundi-los é como falar um dialecto numa tribo diferente, resultando em algo semelhante à prescrição de um medicamento para maleita diversa...

(...)

«(...) the ambitions are wake up, breathe, keep breathing the ambitions are wake up. breathe, keep breathing
you have driven these streets a thousand times and all they offer is their exhaustion
your nightmares have your name now
you exit the glitter storm, go home alone and embrace the violence instead
this city has claimed all your blood and memory this is cool and unusual punishment
you go for years without touching another
never think of the why you are so casual about brutality
doctor says "take this it'll settle you down" doctor says "take this it'll settle your system" doctor says "take this we'll settle the bill" doctor says "take this it'll settle the score"
the ambitions are wake up, breathe, keep breathing the ambitions are wake up, breathe, keep breathing. (...)
the sweet things don't stick around but the bullshit lasts forever.»

Nicole Blackman (Golden Palominos),
The Ambitions Are, in «Dead Inside» *



Cátia Mourão, Arcano XXII

Cátia Mourão

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